quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Segunda parte do Capítulo 3 de SÁRDIRUS - A TERRA LENDÁRIA DO AGRESTE




3 –
A BARGANHA COM O QUITANDEIRO
(Segunda Parte)


Alberto por um instante abaixou a cabeça e começou a sair, vencido. Porém, num rompante, virou-se mais uma vez para seu João da Mata, encarando-o severamente.

– O senhor vai ter que nos levar, seu João.

– Alberto... –, chamou Leônidas, louco para sair logo dali. No entanto, seu primo o ignorou.

– Todo domingo o senhor vai buscar queijo no seu sítio, em Coivaras. A Serra fica no caminho de lá. Amanhã é domingo, e já que o senhor vai passar lá de qualquer jeito, não vai lhe causar nenhum prejuízo levar a gente.

– Amanhã não, o prejuízo vem depois, quando vocês desaparecerem na mata e eu tiver que dar conta de vocês. Nem pensar, seu pirralho. Pra mim é caso encerrado.

– Lamento, seu João. Mas o senhor está me obrigando a fazer o que eu não queria.

– Como assim? Do que você está falando?

– Estou falando das pessoas que compram gato por lebre aqui na sua mercearia. De uma cachacinha que ganha um pouquinho de álcool a mais, pra render. De um melzinho de açúcar pra completar o mel de tiúba. De um detergente com o dobro de água, que cheira muito mas não limpa nada... Coisas assim, seu João.

O velho quitandeiro estava de respiração suspensa e de olhos esbugalhados. A voz saiu aos solavancos.

– Como é que você se atreve, seu peste?

– Eu já disse que sinto muito, seu João. Mas agora que comecei, vou até o fim. Até porque não tou pedindo nada que lhe prejudique. Só quero uma carona até a serra, só isso. Eu e meu primo não somos idiotas, seu João. Nós não vamos desaparecer nem nada desse tipo. Tenho 12 anos e ele tem 13. Não vamos fazer nenhuma besteira, eu juro. A gente só quer ir lá na serra pra brincar à vontade, sem nossos pais nos proibindo até de olhar pros lados que eles não querem que a gente olhe. Leve a gente, seu João, por favor! O senhor vai mesmo pra Coivaras, e vai passar na serra de qualquer jeito. Não lhe custa nada. Gosto muito do senhor, mas se o senhor se recusar a me fazer um favor tão simples é porque não é meu amigo. E se nós não somos amigos não sou obrigado a guardar seus segredos. Posso contar pra todo mundo que...

– Chega, seu monstro mirim! – O velho estava embasbacado. Porém, viu que a barganha estava ganha pelo garoto. A arma que ele tinha nas mãos era poderosa demais. – Você quer que eu fale com sua mãe e peça permissão pra levar vocês dois, não é isso?

– Entendeu direitinho, seu João. Eu sabia que o senhor não ia querer perder um amigo do meu calibre. Seus trambiques estão seguros, não se preocupe.

– Me respeite, seu terrorista!

– Foi mal, seu João. É que a gente é tão amigo que ás vezes eu até penso que o senhor também tem 12 anos.

Seu João da Mata enxugou o suor da testa com as costas da mão, bufando de contrariedade. E, impaciente:

– Pois bem. Daqui a pouco dona Sofia virá aqui, não é? Vou falar com ela. Mas você precisa saber, seu pequeno monstro, que eu não posso nem desejo violar a autoridade de sua mãe e de seu pai. Falar com ela e pedir permissão pra levar vocês, isso eu faço. Agora, se ela não permitir, não venha me responsabilizar e me chantagear, que a culpa não é minha.

– Tá certo, seu João. O senhor só tem que fazer a sua parte direitinho e deixar o resto comigo. Mas não vale esperteza, seu João. O senhor não pode falar com mamãe só por falar, sem mostrar muito interesse. Quando for pedir permissão a ela, o senhor tem que estar com aquele brilho nos olhos, entende? Como se eu fosse o seu amigão mais amado do mundo, e o senhor ficasse numa fossa danada quando está longe de mim. Se o senhor pudesse chorar, ia ser perfeito, seu João.

– Mas é um patife de nascença mesmo! Passa fora, Sapo-Pinga! Já perdi tempo demais com você, e o Domingos só tem duas mãos. Anda, moleque, se manda, que eu tenho o que fazer.

– Sim senhor, meu amigão. Mas antes, deixe eu lhe dar meu abraço de agradecimento.

Antes que seu João da Mata pudesse se esquivar, o menino já estava com os braços enroscados em sua cintura. E tão rápido como o agarrou, Alberto o largou e saiu na frente, chamando Leônidas e eufórico. Passaram mais uma vez por dentro da mercearia, pagaram e receberam os pães das mãos do Domingos e foram embora.


Um segundo depois, seu João da Mata adentra de volta a mercearia, e ainda tem tempo de ver, por sobre o balcão, os dois meninos se afastando e conversando coladinhos, em tom de confidência. Por um instante o olhar do velho fica distante, se abstrai, como se a petulância daquele menino o fizesse recordar de um outro menino, num passado já remoto, que também fora sonhador e atrevido, mas que em algum momento deixara de ousar e sonhar, e hoje era só um velho quitandeiro, que admirava secretamente a coragem do menino que acabava de derrotá-lo num duelo de vontades. Sorriu discretamente. Ah, nanico! E voltou para os seus afazeres.


(Continua no próximo post. Inté!!!)



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