quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Primeira parte do Capítulo 3 de SÁRDIRUS - A TERRA LENDÁRIA DO AGRESTE



3 –
A BARGANHA COM O QUITANDEIRO


No outro dia, de manhã cedo, Leônidas acordou sentindo o cheirinho característico de cuscuz, do qual sempre lembrava quando estava em Teresina. Era impressionante como o cuscuz preparado por tia Sofia não levava nenhum ingrediente de singular importância e mesmo assim tinha aquele sabor inigualável. Talvez fosse a magia culinária peculiar àqueles que preparam o alimento para as pessoas mais especiais de suas vidas.

Ah, não! – pensou Leônidas, contrariado. É que uma das etapas do plano de Alberto consistia em irem comprar pão na mercearia assim que acordassem; e o que justificaria a compra dos pães se não alegassem que não iriam querer cuscuz? Droga, Sapo-Pinga!

A mercearia de seu João da Mata ficava a dois quarteirões da casa de Alberto. E naquela manhã era imprescindível falar com o velho comerciante antes que Sofia fosse fazer as compras do dia. O meio mais prático, para evitar suspeitas, era ir comprar pães logo que acordassem, antecipando-se a Sofia e abrindo mão de saborear o delicioso cuscuz.

Não foi sem a admiração dos pais que os dois garotos se levantaram, escovaram os dentes e pentearam os cabelos com tanta excitação, vindo pedir, logo em seguida, o dinheiro para irem à mercearia.

– Alberto é assim – começa Sofia –, de tanto comer cuscuz no café da manhã a vida toda, tem dia que enjoa e não quer sentir nem o cheiro. E Leozinho, acostumado com as delícias de panificadora lá da capital, imagina se vai gostar de cuscuz.

– Não é nada disso, tia – emenda Leônidas, com medo de, além de tudo, estar magoando Sofia e sendo ingrato com ela.

– Prometo que amanhã eu e Leozinho, sozinhos, comeremos uma banda do seu cuscuz, mãe – interveio Alberto. – Mas hoje eu tou querendo pão, e convidei meu sócio aqui pra me acompanhar nessa.

Todos acharam graça na utilização do termo “sócio”. O que nem desconfiavam era que o emprego da palavra não estava completamente fora de contexto.

De posse do dinheiro, saíram a passo miúdo rumo à mercearia de seu João da Mata. Leônidas ainda se sentia meio contrariado pelo risco de ser mal interpretado pela tia.

– Eu não quero que ela e o tio Ramiro fiquem pensando que eu tou me tornando um Mauricinho, entendeu?

Alberto sorri da preocupação do primo.

– Fica frio, Leozinho. Eles sabem que o lance do pão foi por minha causa. Agora a gente tem que se concentrar, o papo com o velho talvez seja duro. Mas a gente não pode abrir mão da ajuda dele. Temos que ser firmes.

Em um minuto subiam a calçada e entravam pelo portão largo da mercearia. Àquele horário, falar em particular com seu João da Mata era quase impossível, de tão lotado que ficava o comércio. Porém, Alberto tinha os seus trunfos com o velho, embora nunca os tivesse utilizado para obter nada dele. Dessa vez seria diferente, caso seu João se recusasse a colaborar.

Esgueirando-se por entre os diversos clientes, os quais aguardavam em pé a vez de serem atendidos, Alberto alcançou a portinhola, no canto direito do balcão, que dava acesso à parte interna da mercearia, onde seu João da Mata e um ajudante atendiam os fregueses. Leônidas, achando que não era de casa o suficiente para seguir o primo, esperou do lado de fora.

– Quer uma ajudinha aí, seu João? – perguntou o menino, já ao lado do quitandeiro e o surpreendendo com sua presença ali.

– Ora, se não é o fantasminha do Sapo-Pinga, que entra nos lugares sem ser notado!

– Seu amiguinho das horas difíceis – insinuou Alberto.

Seu João da Mata não deixou de perceber um certo cinismo brejeiro na expressão do menino. Terminou de empacotar as mercadorias do cliente que estava atendendo, despachou-o e, em seguida, fingindo afagar a cabeça do garoto e lhe dizer coisas amáveis, agachou-se e quis saber:

– Diga, seu pirralho: o que é que está passando por essa cabecinha de guabiraba, hein? Sei muito bem que nas férias você não acorda esse horário. E nunca entra na minha bodega com essa saliência toda, a não ser que esteja tramando uma das suas.

Alberto deixa fluir um sorriso tão infantil quanto malicioso.

– Uma das minhas não, seu João. Dessa vez é uma das nossas. Coisa pequena. É só um favorzinho do meu velho parceiro – e dá um tapinha no ombro do quitandeiro.

– Sei – faz seu João, com ar de desdém. – Pois volte aqui lá pra mais tarde, que agora, se você prestar bem atenção ao seu redor, a mercearia está cheia de gente pra atender e o Domingos só tem duas mãos.

Dizendo isso, seu João da Mata voltou a se erguer e fez menção de se afastar de Alberto.

– Espere, seu João – diz o menino, segurando a mão do velho. – Sei que o senhor está muito ocupado, e peço desculpas por lhe atrapalhar, mas vou ter que fazer isso. Daqui a pouco minha mãe virá aqui fazer as compras do dia, e a minha conversa com o senhor precisa ser antes disso. Sinto muito, seu João, mas exijo falar com o senhor agora.

A palavra “exijo” trazia uma carga de insinuação tão evidente que fez o velho, incrédulo, captar uma sutil ameaça.

Seu João da Mata trabalhava com uma grande variedade de produtos em sua mercearia, desde utensílios de plástico, alumínio, louça e vidro, cosméticos e material de limpeza em geral, até os produtos alimentícios básicos de todos os tipos, além de bebidas alcoólicas. Acontece que seu João também vendia produtos de fabricação mais artesanal, caseira, como o detergente, a cachaça e o mel. Pois bem, digamos que seu João nem sempre era politicamente correto na fabricação desses produtos, e que, geralmente, contratava como ajudante algum dos meninos da vizinhança, filho de algum velho conhecido. E como era um dos pequenos habitantes mais populares do bairro Paulo VI, Alberto já tinha desempenhado muitas vezes aquela função, conhecendo alguns segredos sobre o velho quitandeiro que ele não desejaria ver revelados. E, pela primeira vez em sua vida, Alberto percebia o lado sordidamente vantajoso de ser o depositário dos segredos de alguém, embora em seu íntimo também vivesse um conflito que não sabia nomear, mas que se chamava autocensura. Algo lhe dizia que estava sendo incorreto, mas como os segredos que guardava eram justamente sobre os atos incorretos de alguém, sentia-se justificado.

Seu João da Mata olhou fundo nos olhos de Alberto. Convencido de que a postura do menino era irredutível, virou-se para Domingos, seu ajudante, e pediu:

– Segure as pontas aí dois minutinhos. Tenho que mandar um recado ali por esse pirralho. – Em seguida começou a sair pela porta que ligava o recinto da mercearia à sala de sua casa, fazendo um sinal para que Alberto o seguisse. Alberto, por sua vez, fez um sinal por cima do balcão para Leônidas, indicando-lhe a portinhola do canto direito e pedindo que ele entrasse para acompanhar a conversa. Não muito à vontade, Leônidas foi pedindo licença e entrando.

Como se quisesse se afastar o máximo possível dos seus clientes naquele momento, seu João cruzou a sala de estar, a sala de jantar, seguiu por um breve corredor que dava acesso á cozinha, e daí cruzou a porta, chegando ao quintal. Ao se virar para seu pequeno interlocutor, notou que agora havia um outro menino ao lado do primeiro, e estranhou.

– Este é meu primo Leônidas, seu João. O senhor deve se lembrar dele. Ele mora em Teresina, mas sempre vem passar as férias aqui. Fazia dois anos que ele não vinha, mas dessa vez ele veio por um motivo especial: veio pra realizar um sonho.

Seu João fez uma cara divertida ao olhar para Leônidas, o qual ficou meio encabulado.

– Ora, ora! Um ilustre visitante da nossa amada capital. Lembro sim, como não lembraria? Você é o filho de dona Rita, a irmã mais nova de dona Sofia do Ramiro, não é isso? Cresceu, hein rapaz! E veio para realizar um sonho, não foi? Na idade de vocês tudo que a gente faz é sonhar. Mas me diga, que sonho é esse que tinha de ser realizado numa cidadezinha pacata e de gente tão acanhada como a nossa?

– Bem, é... – Leônidas procurava as palavras.

– Ele quer conhecer a Serra de Santo Antonio, seu João – disparou Alberto.

Seu João não conteve uma gargalhada. Mas, vendo que os meninos se mantinham sérios, logo se recompôs.

– Meu caro jovem metropolitano – começou o velho, dirigindo-se a Leônidas –, os rapazinhos da capital, como você, costumam ser mais ambiciosos. Mas, se o que você quer é conhecer a nossa bela montanha, não vejo qual o obstáculo, afinal o meu amigo Ramiro nasceu e se criou em Campo Maior, é pescador e caçador, conhece como poucos todos os arredores da cidade, e tenho certeza de que ele adoraria levar o sobrinho, com toda a família, para este agradável passeio.

– Verdade, senhor. Eu...

– Papai adoraria sim, seu João – retrucou Alberto. – Mas nós precisamos e queremos ir sozinhos.

– Sozinhos! – escandalizou-se o quitandeiro. – Duas crianças como vocês, sozinhos na mata, sem nenhum adulto por perto? E como vão chegar até lá?

– É aí que o senhor entra na história – revelou Alberto.

Seu João primeiro sobressaltou-se. Ficou parado, fitando o menino com interesse. Depois deu um passo para trás, arregalando os olhos. Parecia ter captado o sentido da conversa.

– Ora, Sapo-Pinga, seu bichinho atentado, o que eu devia fazer era recomendar à sua mãe que lhe desse a bela de uma surra. Acha mesmo que vou levar você e seu primo pra largar no meio da mata, voltar pra casa, e depois receber uma intimação da polícia pra dar conta de vocês? Fora daqui, seu brejeiro! Minha bodega está lotada de clientes, e eu tenho muito o que fazer. Vou mandar o Domingos entregar os seus pães, e quero que você desapareça. Me desculpe, Leônidas, mas esse seu primo às vezes passa dos limites.


– Tudo bem, senhor. Vamos, Alberto – disse Leônidas, vermelho de constrangimento. 


(E agora? Será que Alberto vai desistir? Não perca, no próximo post!!! 


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