segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Capítulo 2 de SÁRDIRUS - A TERRA LENDÁRIA DO AGRESTE




2 –
UM SONHO, UM PLANO
E HISTÓRIAS FANTÁSTICAS



Na sala, Wellington, a esposa e a cunhada conversavam em clima de festa sobre as últimas novidades da vida de cada um. Rita havia sido aprovada num concurso público no estado do Maranhão, e a partir desse ano teria dois empregos, dando aulas em Teresina e Timon. Wellington fora promovido a chefe da seção de eletrodomésticos da loja em que trabalha como vendedor há dez anos. E Sofia, depois dos trinta, comemorava a volta aos estudos, no turno da noite, decidida a finalmente concluir seu Ensino Médio e até ir além, arriscando uma faculdade e vindo a ser uma mulher formada, assim como a irmã.

Enquanto os três se congratulavam pelas boas notícias e diziam palavras de estímulo uns aos outros, alternando-se na explanação dos seus planos para novas conquistas, os dois primos se entretinham sossegados no pé de azeitona, lá no quintal.

Alberto subiu para o galho mais alto da árvore e tentou encorajar Leônidas a segui-lo. No entanto, Leozinho tinha os seus motivos para não topar o desfio. Lembrava-se muito bem que uma vez tentara ultrapassar a metade da árvore e, por pouco, não tinha se dado muito mal. Levou um escorregão, desequilibrou-se, e quando seu corpo já ia se precipitar no vazio, Alberto o segurara pela gola da camisa, evitando o que teria sido um encontro bem traumático com o chão.

Com a força do susto ainda viva na memória, Leônidas pedia que Alberto descesse para o galho onde ele estava. Alberto então desceu, mas do seu jeito. Em apenas dois saltos, agarrando-se em outros galhos, estava no mesmo galho que o primo.

– Não sei se você é corajoso ou maluco – comentou o primo da capital.

– Relaxa, Leozinho. Nasci fazendo isso – replica o outro, com um sorriso matreiro no rosto.

Leônidas balança a cabeça, sorrindo também.

– Escuta, queria te contar um sonho que tive na estrada, enquanto cochilava no ônibus – começa Leônidas, conseguindo a atenção do primo aventureiro.

– Massa! O sonho de um garoto inteligente é sempre uma coisa interessante. Do jeito que você vive lendo aquelas histórias que me conta e tem a imaginação boa, seu sonho só pode ter sido coisa bacana.

Leônidas sorri mais uma vez.

– Quer ouvir ou não, palhaço?

– Rasga. Vou ficar bem caladinho.

– Beleza. Foi o seguinte: sonhei que a gente estava na Serra de Santo Antonio, tomando banho numa cachoeira; acho que era a cachoeira que sempre ouvi dizer que tem lá. De repente, apareceu um pássaro enorme voando no céu; ele era lindo, de penas brancas e malhadas de verde e roxo nas pontas das asas, no peito e na cabeça; mas no tamanho ele era assustador. Aí ele veio vindo e passou sobre nós, lentamente, e começou a subir de novo, mas agora ia levando você pelas garras. Só que você não parecia nem um pouco assustado, muito pelo contrário, você acenava pra mim alegremente, enquanto o pássaro subia cada vez mais alto. Você abanava os braços no ar, como se estivesse muito feliz e tivesse intenção de voar por conta própria; e realmente, depois de uma certa altura, o pássaro te soltou. Mas nessa hora aconteceu uma coisa incrível – durante a queda você se transformou também num pássaro branco, tão bonito quanto o outro, e saiu voando suavemente pelo céu. Depois disso, o grande pássaro começou a vir na minha direção; e quando já tinha chegado bem perto de mim, ele simplesmente falou. Isso mesmo, falou numa voz incrivelmente agradável: “Agora é a sua vez”. Mas antes que ele tocasse em mim, eu acordei.

– Caraca, Leozinho! Pense num sonho massa!

E depois da primeira reação, Alberto ficou absorto por um momento, ponderando alguma coisa aparentemente de grande importância.

– Mas tem uma coisa... – recomeçou Alberto.

– O que é? – interessou-se Leônidas.

– Lembra do plano que te falei? Pois é, tem a ver com a serra, que nem o seu sonho.

– Me conta essa história direito.

E Alberto se explicou:

– É claro! Deve ser isso. O seu sonho significa que quando você chegasse aqui, eu ia te falar do meu plano, você ia gostar da ideia e a gente iria voando pra serra. Só que você ficaria menos à vontade do que eu, pelo fato de a gente ter que ir escondido.

– Como é que é? Virou intérprete de sonhos agora, Sapo-Pinga? E que conversa maluca é essa de a gente sair escondido?

– Bom, sobre o sonho eu não sei direito, posso estar enganado. Agora, quanto ao resto... Você sabe, Leozinho, se a gente for passear na serra com nossos pais, eles nunca vão deixar a gente fazer o que a gente sempre quis fazer lá: escalar, explorar ao redor, entrar nas cavernas e nas grutas. Sei disso porque já fui lá com meus pais, e o máximo que pude fazer foi dar uns pulinhos no riacho. Mas sempre tive vontade de fazer muito mais. E como você também é apaixonado pelo lugar, tive a ideia de irmos sozinhos, pra podermos realizar o nosso sonho. Só que isso nossos velhos jamais iriam aceitar. Mas domingo vamos ter uma oportunidade de ouro. E não enfeita, Leozinho, sei que você quer fazer isso tanto quanto eu.

Leônidas estava relutante, confuso. Do galho da árvore onde estavam conversando, a visão da serra naquele horário, com o sol começando a se pôr, era magnífica. Ele movia os olhos entre a longínqua imagem no horizonte e o rosto afogueado e próximo do seu primo. Sabia que a proposta de Alberto era um disparate, mas sentia-se tentado a aceitar. Por fim, resolveu dar uma chance ao primo de mostrar o que a sua inteligência era capaz de articular.

– Alberto, olha... Bom... Droga! Fala logo, qual é o plano?

– Besta! Eu sabia que você não ia me decepcionar, garoto – comemora Alberto. – Presta atenção, o plano é o seguinte...


Leônidas ouviu com curiosidade. E também com espanto, pelo que provavelmente estava prestes a fazer. 


(Continua no próximo post. Não perca! Até amanhã!!!


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