domingo, 1 de novembro de 2015

Segunda parte do Capítulo 1 de SÁRDIRUS - A TERRA LENDÁRIA DO AGRESTE




1 –
LONGÍNQUA E DESEJADA
(Segunda Parte)


O táxi com Rita e as duas motos com pai e filho venceram rapidamente o seu trajeto em torno do Açude Grande, e logo alcançaram a BR 343, que atravessa a cidade. Virando à esquerda, subiram mais dois quarteirões e saíram da BR pela direita, entrando no bairro Nossa Senhora de Fátima. Cruzaram o bairro até os trilhos da estrada de ferro, onde começava o bairro Paulo VI, destino da pequena caravana.

O bairro Paulo VI está localizado na periferia de Campo Maior, e é um dos mais modestos da cidade. Existe uma curiosidade engraçada na história do bairro, provavelmente surgida nos primórdios de sua fundação e cuja origem incerta podem ter sido pilhérias populares. Um dia, há muito tempo atrás, alguém teve a ideia de apelidar o bairro de “Rabo da Gata”. E é assim que até hoje as pessoas da cidade se referem a ele.

Se alguém pergunta “Onde você mora?”, e outro responde “Moro no bairro Paulo VI”, o que fez a pergunta imediatamente comenta: “Ah sim, mora no ‘Rabo da Gata.’”

Não deixa de ser uma gozação. Mas, ao mesmo tempo, é um termo que já se fez tão popular que ninguém se sente ofendido.

A rua onde Leônidas e sua família iriam ficar era a rua São Joaquim, na casa de Sofia, irmã mais velha de Rita.

Saindo do calçamento e atravessando os trilhos, os três veículos entraram na simpática ruazinha de chão de piçarra, coberto por milhares de diminutas pedrinhas marrons, cujo ruído da passagem dos pneus sobre elas era parecido com o da chuva fina sobre os telhados.

Enquanto entravam na rua São Joaquim, Leônidas inclinou-se para a direita na garupa da moto, na intenção de antecipar a visão da porteira da casa de tia Sofia. Foi quando, surgindo do nada, um menino apareceu correndo numa velocidade incrível, e chutou, com toda a força do embalo em que vinha, uma pequena lata de refrigerante vazia, que estava no chão a alguns passos de outro menino, o qual esticava o pescoço para dentro do terreno de um cercado como se procurasse algo, ou alguém.

Imediatamente Leônidas reconheceu feliz o menino que ainda saltitava aos berros, com a latinha na mão, e pôde entender o cenário – era seu primo Alberto, e estavam brincando de Salva Latinha.

Alberto ainda comemorava a vitória no jogo, gritando “Salvei! Salvei!”, quando se deu conta da chegada dos parentes da capital. Ao ver o táxi e as duas motos, saiu correndo para dentro de casa, antes mesmo de cumprimentar o primo e os tios, para anunciar a chegada deles à sua mãe, Sofia.

Ao ouvir a notícia, Sofia precipitou-se para fora, aplaudindo de tanta alegria. E fervorosos foram os abraços de boas-vindas que ela e Alberto trocaram com todos.

Apesar da curta distância, havia dois anos que Rita e a família não vinham a Campo Maior por mais que um domingo, em viagem de ida e volta no mesmo dia. Ela e Sofia pertenciam a uma casa de seis irmãos, sendo que quatro deles, todos homens, foram emigrando do Piauí em busca de uma vida melhor nas grandes metrópoles do país, voltando aqui apenas a passeio e muito raramente. Rita fez faculdade de Letras, é professora de Literatura e nunca quis sair de Teresina. Já Sofia casou-se com Ramiro, um rapaz do interior que não deu muita sorte com empregos na capital e, por isso, foram morar em sua cidade natal, Campo Maior, onde ele vive como operário em obras de construção e da colheita da palha de carnaúba. Como bom homem do campo, Ramiro também gosta muito de caçar e pescar. E não estava em casa nessa tarde exatamente porque tinha ido a uma pescaria, o que significava uma promessa de saborosos peixes na brasa à noite, quando ele retornasse.   

Enquanto Rita, Sofia e Wellington tentavam encontrar um foco para a animada conversa no calor do reencontro, Alberto levou Leônidas ao quarto para guardar sua mochila. Esses dois sim, tinham muito assunto para pôr em dia.

Leônidas sentou-se na beirada da cama e Alberto na rede que cruzava o quarto em diagonal.

– Que bom que você veio, Leozinho! Quando tia Rita ligou, avisando que vocês chegavam hoje, fiquei contando as horas.

– Também estou feliz por estar aqui. Sinto falta das nossas conversas. Se tia Sofia deixasse, juro que te levaria pra morar com a gente em Teresina.

– Uau! Ia ser demais, Leozinho! – Alberto diz com os olhos cintilantes. Mas em seguida faz uma pausa e fica pensativo. – Só não sei se ia me acostumar a acordar todo dia e não poder olhar pra Serra de Santo Antonio. É a primeira coisa que gosto de fazer quando me levanto. Vou lá pro quintal e fico olhando pra ela rodeada de neblina. É a coisa mais bonita do mundo.

– Ela é linda mesmo, Alberto. Nem acredito que nunca fui lá. Primeiro, por causa das histórias sobre a onça. E por último, esses dois anos sem vir passar as férias aqui.

– Pois é, mas se depender de mim, dessa vez você não vai mais voltar pra Teresina se queixando de não ter subido a serra. Já bolei um plano. Só tenho que saber se você topa.

– Como é que é? Um plano? O que é que está passando por essa cabeça, hein?

– Fica frio, Leozinho. Deixa tudo por minha conta. Na hora certa você vai saber. Agora vê se tira esse tênis e essa roupinha toda engomadinha, e vamos subir no pé de azeitona, lá no quintal.

Alberto era assim. De tão brejeiro que sempre fora, havia recebido o apelido de “Sapo-Pinga”, um presente do próprio pai, o sempre bem-humorado Ramiro.

Primeiro, Ramiro começou a chamá-lo de “Sapinho”, por causa da puladeira desenfreada dentro de casa. Depois, quando Alberto não se aquietava mais em casa, e só queria ficar na casa de um e de outro, pela vizinhança inteira, o pai lhe chamava de “Pinga aqui – Pinga acolá”. E assim, depois de algum tempo, os dois apelidos paternos se fundiram, combinando-se num só, talvez para fazer justiça a todas as sapequices do garoto, e então surgiu o Sapo-Pinga.

Já no quintal, começando a subir no pé de azeitona, enquanto conversavam e sorriam, Leônidas era obrigado a admitir que estava morrendo de saudades das travessuras do primo. Era de admirar como conseguiam se entender tão bem, mesmo sendo tão diferentes um do outro. O pouco que havia em comum era o suficiente para fazê-los os dois amigos mais cúmplices da face da terra.
O que nenhum dos dois podia imaginar era que, dali a dois dias, a experiência que viveriam juntos elevaria sua amizade, que já era muito especial, ao nível de um pacto.  


(E no próximo post, iniciaremos o Capítulo 2. Será em 24 horas. Abração, e até lá!!!)

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