quinta-feira, 5 de julho de 2018

EL MATADOR - a performance




Na noite desta última quarta-feira, dia 04 de julho, a praça do palco ao ar livre da Escola Técnica de Teatro Prof. José Gomes Campos estremeceu sob a reprodução do som ancestral dos tambores das nações indígenas que habitaram as terras do Piauí ao longo de muitos séculos, até serem dizimadas pelo criminoso processo de colonização/tiranização do dito “homem civilizado”. 

Tomando como mote criativo o poema El Matador, de H. Dobal, a turma do módulo II do turno tarde do curso de teatro, sob a coordenação e direção dos professores Xico Carbó, Giselle Tôrres e Laila Caddah, sintetizou, através de uma construção cênica bastante poética e eficaz em poder de imersão do público, pelo apelo sensorial, o drama de um povo nativo ante o ato usurpador e violento dos prepotentes invasores de suas terras, ladrões de sua liberdade, sua cultura, da vida de seus corpos físicos e de seu legado imaterial – sua língua, suas crenças, sua filosofia e sabedoria popular.

A performance se inicia com um quadro de apelo sensorial e elemento de imersão arrebatadores: três índios executando um toque ritual com seus instrumentos tribais. Uma cena de abertura que nos desperta o desejo de vê-la se prolongar, como se pressentíssemos que esse prolongamento fosse capaz de nos proporcionar uma conexão espaço/temporal com nosso passado remoto, com nossas raízes mais profundas e com a origem de tudo que somos. É impossível contemplar os três índios (perfeitamente caracterizados) em seu ato ritual e não se sentir parte daquilo que eles celebram e ao mesmo tempo reivindicam – sua liberdade, seu canto mágico de adoração, louvor e, simultaneamente, seu grito de guerra contra os opressores.

Curiosamente, os outros três personagens indígenas que discursam diretamente sobre o palco, dando voz a toda a indignação contra os opressores, são três mulheres – outra classe oprimida ao longo da História, em todas as épocas e praticamente em todas as culturas. Que tenha sido uma escolha proposital ou mera determinação de possibilidades do grupo para o elenco, a imagem gerada teve sua carga simbólica positivamente potencializada.    

Os adereços, maquiagem, figurinos e elementos cenográficos da performance foram, a meu ver, genialmente precisos, sintéticos e certeiros, por terem comunicado toda a ambientação de época pretendida com uma inteligente economia de recursos e materiais. A iluminação natural à base de archotes, as folhas secas espalhadas pelo chão, os cipós entrançados e ardendo em alguns pontos, também são pequenos mas poderosos detalhes que sugaram o público para dentro do espaço imaginário de uma outra era, de um outro aqui. O universo conspirou a favor, fornecendo à encenação ao ar livre uma belíssima noite estrelada, elemento cênico inusitado (e, claro, não controlado pelos encenadores), saboreado apenas por aqueles que assistem a um espetáculo com o olhar atento às sincronicidades casuais do ambiente e da situação (confesso ser esse tipo de maníaco).

Ao final da apresentação tive o insight de produzir este texto, resgatando um velho hábito meu que anda meio adormecido, de escrever sobre tudo que assisto no teatro, e também como forma de gratidão pelo empenho e a doação dos artistas envolvidos nesta linda produção. E, num gesto intuitivo, improvisado, liguei o gravador de áudio do celular e entrevistei a professora Giselle e o professor Carbó, pedindo que falassem sobre este processo criativo. Faço a seguir um recorte transcrito dos principais pontos ressaltados no depoimento dos dois:

Giselle Tôrres:
“Nós sabíamos que queríamos falar sobre a realidade do índio hoje, porque essa é uma questão que, aqui no Piauí, vem desde o século XVII, mas a violência e o extermínio contra os índios, no Brasil inteiro, permanece até os dias de hoje. Veja o caso do índio Gaudino, que ficou impune. Queríamos trazer um protesto contra isso. Então, usando a linha brechtiana, trabalhada pelo professor Carbó no módulo II do nosso curso, e a questão do pulso-ritmo, trabalhada em Expressão Corporal II, pela Laila Caddah, unimos esses elementos ao meu trabalho de direção. Quando pensei na iluminação, pensei em como oprimir a plateia. Eu iria colocar várias palhoças em que a gente iria tocar fogo, mas fiquei apreensiva porque vieram crianças assistir, e acabamos priorizando a questão da segurança. Também queria ter usado uma projeção, mas tivemos problemas com o Datashow. Em suma, é um espetáculo que resultou da união entre as três disciplinas do módulo II, interpretação, expressão corporal e encenação.”

Xico Carbó:
“Nós começamos por pensar no poema, desde o início deste período trouxemos a proposta do poema El Matador. Foi um processo tranquilo, cada um dos três professores se organizou e procurou ajudar um ao outro. Mas a direção ficou a cargo principalmente da Giselle, que é quem está mais afinada com essa área. Quanto ao grupo dos alunos do módulo II, eu quero parabenizá-los. A meu ver, eles são não apenas o módulo II, mas sim um autêntico grupo de teatro dentro da Gomes Campos. Eles têm um trabalho coletivo muito forte, são muito coerentes com o que querem fazer e são esforçados. Eles são muito unidos, essa união é o ponto mais forte deles. Basta uma pessoa para organizar, porque eles são muito receptivos. Gostei muito de trabalhar com eles, foi uma experiência muito bacana que vivi aqui na escola.”

Assim, de minha parte, também só tenho a parabenizar aos professores e aos alunos do módulo II do turno tarde. Se houve senões que poderiam ser apontados aqui e não foram, é que tenho a compreensão de que um trabalho feito em tempo recorde, como são as produções para o Momento Cênico da escola, com artistas em franco momento de aprendizado e experimentação do seu potencial criativo, deve sim receber destaque pelos seus aspectos positivos e pelos acertos obtidos no processo. Claro que apontar os senões de forma honesta e intenção construtiva ajuda a moldar o talento e contribui com o aprendizado. Mas... quer saber? O Texto é meu e eu prefiro falar apenas dos elementos positivos que identifiquei. Afinal, em nossa profissão, não faltarão aqueles olhares sempre focados no que deu errado. Já eu escolho me solidarizar com Torquato Neto e cantar com ele, em uníssono: “Só quero saber do que pode dar certo/ Não tenho tempo a perder!

Parabéns a todos!!!
Fui!!!

Eduardo Prazeres




segunda-feira, 13 de março de 2017

BATALHA DO JENIPAPO - heroísmo patriótico em terras do Piauí




Ressoa o Grito do Ipiranga
No Sudeste do Brasil,
Proclamando a Independência
Em brado forte e varonil;
É assim que se inicia
O movimento que teria
Patriótico perfil.

Mas a coroa portuguesa
Pela força planejava
Insistir em seu domínio
Na colônia que escapava;
Numa terra tão extensa,
D. João VI ainda pensa
Nas riquezas que ela dava.

Pará, Maranhão e Piauí,
Norte/Nordeste da nação,
Sofriam de deficiência
Em sua comunicação;
Grande extensão territorial
E o transporte animal
Formavam a limitação.

E por falar em animal,
Vejamos o gado bovino,
Que aqui no Piauí
Era um tesouro genuíno;
Por isso o Estado interessava
A Portugal, que enxergava
A riqueza em seu destino.

A importância deste fato
Estava numa estratégia
Criada pelo regime
Pra manter a força régia;
Com o Piauí subjugado,
Sem fornecer carne de gado,
O rei faria a sua média.

Outro fator relevante
Na cobiça da coroa
Era a geografia,
Estratégica e boa;
Do Piauí fácil seria
Navegar, pra quem queria
O intercâmbio com Lisboa.

E poderia praticar-se
Uma forte vigilância
Contra as forças externas,
Que também tinham ganância
De explorar o Brasil,
Fonte de riquezas mil,
Dando lucro em abundância.

D. João VI então nomeia
João José da Cunha Fidié,
Valente Major português,
Por quem nutre grande fé,
A Governador das Armas
Para manter as amarras,
Do Piauí como puder.

Fidié entra em Oeiras,
Nessa época a capital,
Em 08 de Agosto de 1822,
Decidido a ponto tal
Que um dia só tendo passado
Já no seguinte é empossado
No seu cargo maioral.

O tempo era complicado;
A causa da Independência
Difundia-se pouco a pouco,
Porém com efervescência;
As grandes complicações
Surgiam com as adesões
A D. Pedro e sua regência.

As adesões no Piauí
Por Parnaíba se iniciam;
Em 19 de Outubro de 1822
Patriotas anunciam
Que se fazem independentes,
Sem temer as consequentes
Represálias que viriam.

Fidié enfurecido
Ao saber desse levante,
Na direção de Parnaíba
Suas tropas leva avante,
Pra sufocar o movimento,
Matando o encorajamento
A qualquer simpatizante.

Na rota para Parnaíba
Campo Maior vem primeiro;
Fidié ali se hospeda,
E realiza um verdadeiro
Tributo ao rei de Portugal,
Impondo ao poder local
Que negue o brado brasileiro.

Ali esteve13 dias,
No intuito de reprimir
As forças independentes
Que pudessem sobrevir;
Partindo em prosseguimento
Deixa um destacamento
Forte e pronto para agir.

No dia 07 de Dezembro
Para Parnaíba parte;
Passando por Piracuruca
Ele usa de igual arte,
Ao lugar subjugando
E um destacamento deixando
Pronto pra qualquer embate.

Em 18 de Dezembro
Ele em Parnaíba chega,
E sem nenhuma resistência,
Sem batalha e sem pega,
Entra na vila rebelada
Que já se encontra sitiada
E a render-se não se nega.

O Brigue Infante D. Miguel
Vindo lá do Maranhão,
Trouxe tropas e armamentos
Prontos pra destruição;
Antecipou-se a Fidié,
Que em Parnaíba pondo o pé
A vitória tem na mão.

Refugiados em Granja,
Interior do Ceará,
Os lideres rebeldes
Vão se reorganizar
Para dar continuação
Ao processo de adesão,
E a independência alcançar.

Leonardo de C. Castelo Branco,
O Aferes rebelado,
De Francisco de Miranda Osório
Torna-se bom aliado;
O capitão Miranda
Desejoso também anda
Por um Brasil libertado.

Os dois líderes citados,
Sem temer nem mesmo a morte
Um exército organizam,
Acreditando que com sorte
O inimigo venceriam,
A independência alcançariam
Pela união de um povo forte.

Os recrutas voluntários
São em dois grupos divididos;
O do Alferes Leonardo
Marcha em passo decidido
Rumo a Piracuruca,
E o de Miranda se ocupa
De Campo Maior, destemido.

Em 22 de Janeiro de 1823
Leonardo e seguidores
Rendem em Piracuruca
Os soldados opressores
Que Fidié ali deixou;
A Independência ressoou
Atendendo aos clamores.

A 24 de Janeiro
É Oeiras que escuta
O brado da Independência,
Disposta a se fazer com luta;
Manoel de Sousa Martins
Desafia os tempos ruins,
Presidindo agora a Junta*.

Informado que Oeiras
Se encontra em rebelião,
E em Parnaíba já estando
Bem cumprida sua missão,
Fidié logo regressa
Com muita fúria e grande pressa,
Pra domar a situação.

Leva sob comando
1.100 homens de guerra,
11 peças de artilharia,
Fazendo tremer a terra;
Recebeu também reforços
Pra reduzir a destroços
Quem por liberdade berra.

Enquanto isso, Leonardo
Cada vez mais empolgado,
Deixando Piracuruca
Com suas tropas ao lado,
Ruma pra Campo Maior,
Onde num brado só
Pedro I é aclamado.

Sua entrada ali se deu
No dia 02 de Fevereiro,
Prende os homens de Fidié
Em gesto forte e altaneiro;
Campo Maior emancipada,
De Portugal já libertada,
Vira o alvo de um guerreiro.

Leonardo satisfeito
Com aqueles resultados
Toma uma pequena escolta
Formada por três soldados,
E da fazenda segue a trilha,
Pra rever a família,
Esposa e filhos amados.

A fazenda Limpeza,
Terra de sua propriedade,
Chama-se hoje Esperantina-
Do Piauí bela cidade;
De lá iria pro Maranhão
Convocar a população
Para a causa da liberdade.

No dia 1° de Março,
Na cidade de Repartição,
Tem uma grande surpresa
Com om povo do Maranhão;
É traído e aprisionado,
A São Luís é enviado,
Ficando ali em reclusão.

Então Luís Rodrigues Chaves-
Capitão vindo do Ceará,
E João da Costa Alecrim -
Grande líder popular,
A outros líderes se aliam
E todos juntos desafiam
Fidié a guerrear.

Reúnem em Campo Maior
Voluntários destemidos;
Somam 1.000 piauienses,
Do Ceará 500 vindos;
Também vieram maranhenses,
Mas foram campomaiorenses
Em maior número reunidos. 

A tropa de voluntários
Era em sua maioria
Homens simples do povo,
E nem armas possuía;
Foices, facões e enxadas
E outras armas improvisadas
Era o que a tropa usaria.

O comando brasileiro
Em Campo Maior fixado,
Sabendo que Fidié,
Experiente e acautelado,
Poderia sua rota mudar
Para um grande confronto evitar,
Formula um plano bem bolado.

Ficando as tropas maranhenses
Em Estanhado (hoje União),
Posicionando as cearenses
Em Castelo (no tempo, Marvão);
Pois estas rotas formavam
Alternativas que evitavam
O sangrento esbarrão.

Mas em 12 de Março
É confirmada a notícia
Trazida ao Comando Geral:
Fidié com sua milícia
Por Campo Maior vai passar,
E ninguém pode lhe enfrentar
Sem ter bravura e perícia.

Mensagens são enviadas
Na tarde do mesmo dia
A Estanhado e a Marvão,
Numa ordem que dizia:
“Nem que dez cavalos morram,
Ordenamos que acorram
Pois a hora se avia”.

Chega o dia 13 de Março,
E ainda de madrugada
Os patriotas se aprontam
Para a grande empreitada;
Em dois agrupamentos,
Poucos preparos e armamentos,
Marcham para o tudo ou nada.

A primeira providência
Que planejavam tomar
Era impedir que os portugueses
Conseguissem atravessar
O Rio Jenipapo,
Pois iriam com este ato
Suas chances aumentar.

Somente em dois locais
A travessia era possível;
Com uma tropa em cada um
Tornariam inacessível
A entrada do inimigo
Na cidade que era abrigo
Da revolta irredutível.

João da Costa Alecrim
Por seus comandados seguido
Vai guardar a direita do rio;
O lado esquerdo é guarnecido
Por Luís Rodrigues Chaves,
Assim ficando as duas traves
Mortal caminho a ser seguido.

Os dois grupos combinaram
Uma senha, um sinal:
Quando avistassem Fidié
Se aproximando do local
Onde um deles estava,
O chefe um tiro disparava
E o outro grupo viria fatal.

Mas o Major Fidié
Era um guerreiro astuto;
Percebeu a armadilha,
Surpreso com o povo matuto;
Foi ele quem disparou
E os brasileiros enganou,
Cruzando o rio como um vulto.

Por volta das 9 horas
Ocorre o primeiro embate;
Matuto contra soldado,
O primeiro é quem bate;
Os portugueses repelidos
Não se deram por vencidos,
Queriam mais que o empate.

Fidié então apela
Para a artilharia pesada,
Arrasando os patriotas,
Vidas ceifando em disparada;
Só o amor à liberdade
Justifica a insanidade
De enfrentar aquela armada.

O comando brasileiro
Para o inimigo dispersar,
Põe em prática o recurso
De ao mesmo tempo atacar,
Surgindo de todos os lados
Os invasores sendo obrigados
A sua formação desmanchar.

Assim prosseguia a luta;
Ora um grupo avançando,
Derramando o sangue inimigo;
Ora o mesmo recuando,
Pela violenta reação
Do adversário que não
Hesitava em ir matando.

Os valentes brasileiros
Poucas armas possuindo,
Encaravam Fidié
Destemidos e insistindo
Em conquistar a independência,
Pra que a sua descendência
Gozasse o cativeiro findo.

Mas as tropas portuguesas
Levavam grande vantagem;
E João da Costa Alecrim
Usando de astúcia e coragem
Põe em prática um plano;
Num esforço soberano
Arma uma sabotagem:

Sabendo que os portugueses
Escondiam sua munição
Próximo à margem do rio,
Ataca os guardas de plantão,
Na água tudo lançando,
Fidié assim ficando
Em menos boa situação.

Após as 2 horas da tarde
Sem munição ali se vendo,
Fidié enfim recua
Com ar de quem vai perdendo
Numa guerra desigual,
Em que tinha fé total
De ver o povo se rendendo.

Nos campos muitos mortos
E os feridos sobreviventes
Eram um quadro de horrores,
Pintado pelos combatentes;
Morreram mais os brasileiros,
Pois não eram guerrilheiros,
Mas trabalhadores decentes.

Porém vitória não se deve
A Fidié atribuir,
Pois cria que seu exército
Ninguém podia resistir,
Mas viu-se ali arrasado,
Seu comando desarticulado
Pelo povo do Piauí.

Com o que restou de suas tropas
Fidié foi acampar
Na fazenda Tombador,
Para se reorganizar,
E com seu contingente
Atacar novamente,
Pois desejava se vingar.

Porém sabendo os patriotas
Do inimigo as intenções,
Durante a noite, em silêncio
Roubam suas armas e munições;
Fidié se vê incapaz,
E abandona seus ideais,
No maior fracasso de suas missões.

Partindo de Campo Maior
E fortemente perseguido,
Só depois de muitas fugas,
Finalmente ele é rendido
A 31 de Setembro de 1823,
Quando é capturado de vez,
E ao Rio de Janeiro conduzido.

Fidié então é deportado
Pra sua terra, Portugal,
Deixando em nossa história
Sangrento referencial;
Mas onde ele for lembrado
O que merece ser honrado
É o grande feito nacional.

E foi assim que o Piauí
Deu sua contribuição,
Oferecendo em sacrifício
Por uma livre nação
O seu sangue, a sua vida,
Fazendo de cada ferida
Uma estrela em seu brasão.






AUTOR:

Eduardo Prazeres
Autor agenciado pela
VILLAS BOAS & MOSS AGÊNCIA LITERÁRIA
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