terça-feira, 20 de setembro de 2011

PLUMAS DE CINZA

           
            Fechou a janela de abas metálicas e tornou a abri-la só para produzir qualquer ruído que o impedisse de ouvir a voz do pai. Gostou da idéia. Prosseguiu com o movimento, sem perceber que ele agora era quem parecia o louco. De uma única coisa tinha certeza – não valia a pena ser duro com alguém assim.
            Como não ousava dizer nada pensava em encarar severamente o pai, mas não ousava fazer isso também. Sabia como eram os olhos do velho em momentos assim, não gostava de vê-los. Pensava em como tudo seria melhor se aquele homem fosse um pai de família equilibrado, que medisse as palavras. Ah, que medisse as palavras, acima de tudo que medisse as palavras. Via a mãe espoletar-se também do outro lado da casa, mas algo lhe dizia que aquele comportamento era um inevitável reflexo, consequência de mais de trinta anos de convivência com o marido de personalidade inconsistente, de caráter débil.
            Esse reflexo do pai na mãe era tão perfeito que causava por ela exatamente a mesma aversão que tinha pelo primeiro. Era duro admitir, mas tudo que restava do seu afeto era piedade. E ainda assim uma piedade flácida,  incapaz de conter uma ponta de ódio já bastante enraizada. Só havia uma maneira de barrar a progressão desse sentimento e, com possibilidade bastante remota de sucesso, alimentar o seu oposto – o amor. O amor que desejava sentir, que sabia que era certo sentir, que estava previsto no decálogo judeu como condição para a longevidade, mas que não lhe era inspirado por aqueles que seriam seus beneficiários mais diretos. Precisava de distância, era esta a maneira. Precisava ir embora o mais urgentemente possível. 
            Mas partir não significava abandonar, nesse caso não. E por isso mesmo não podia fazê-lo agora. Era filho único. Talentoso e com ótimas chances de construir uma boa carreira. Mas quem cuidaria dos velhos quando o pai não pudesse mais trabalhar? Ainda seriam vivos quando ele arranjasse recursos suficientes para manter-se e ainda ajudá-los? Desejava partir mas era imperioso ficar. Somente quando fosse possível deixá-los assegurados poderia  viver a própria vida.
            Agora vinha o momento da briga em que o pai começava a rir nervosamente e a mãe o xingava a plenos pulmões. Como os dois podiam ser tão indiferentes à própria reputação? Pensava nos vizinhos. Queria não se importar tanto com eles, afinal tinham também os seus podres não muito sigilosos. Porém esta era uma história antiga. Evocava de memória as feições já quase apagadas de quantos amigos deixara de fazer na rua onde morava, das namoradas que deixara de ter por pura vergonha de botar a cara pra fora, de erguer os olhos ao passar pelas garotas e rapazes do bairro.
            Somente quando fosse possível deixá-los assegurados poderia viver a própria vida. Projetava o olhar através do tempo, visualizando o homem cheio de sequelas deixadas pela tristeza que então seria e se perguntava que vida ainda haveria para viver depois de tudo. Olhava contemplativo pela janela do quarto, percebendo o nítido contraste entre a imagem plácida do azul oceânico refletido no céu e o negror sonoro do ambiente familiar vibrando nas cordas vocais do pai e da mãe.
            Por que não se separaram a vinte anos atrás?
            Bem, para dizer a verdade se separaram, mas por que diabos voltaram? Ficara na casa de uma tia, o pai vinha vê-lo duas ou três vezes por semana, da mãe só sabia que estava no Rio de Janeiro, no entanto sentia que amava-os, como amava-os! Por que lhe tiraram o direito de amá-los para sempre, nunca mais voltando a viver juntos? Que inveja sentia dos meninos de orfanato, dos  prematuramente órfãos.
            Se ao menos a dinâmica da briga variasse. Mas os motivos e até mesmo alguns trechos do palavreado pareciam ecos de um pesadelo remoto, letra de música ruim que se aprende de tanto que se ouve por acaso e indesejadamente. Mas partir não significava abandonar, nesse caso não. E por isso mesmo não podia fazê-lo agora.
            “Cara, como tu tá velho” - ouviu pela primeira vez aos dezoito anos, de uma criança da família que não via há algum tempo. Aos dezoito anos. Aos dezoito. Desde então passou a detestar a idéia do seu corpo, particularmente seu rosto, arquivando indiscriminadamente todas as suas vivências. Suas monovivências.
            Continuava olhando pela janela num estado um pouco além da contemplação ( ou aquém, quem sabe). Olhava agora como se procurasse, como se buscasse entre as nuvens e no imenso deserto azul algum vestígio do amor de que se esvaziara. Mas tinha medo de se virar e se deparar com suas cinzas em plumas, flutuando pela casa. Sim, era pertinente essa imagem do amor em combustão e depois em cinzas. Sendo a combustão processada imperceptivelmente, vagarosa, arrastando sua língua manhosa ao longo dos anos. E as cinzas do seu lavor só agora pressentidas.
            E talvez ali, somente ali, naquelas cinzas, pudesse ainda colher a seiva desidratada e quase intangível daquilo que um dia foi o alegre sentimento de uma criança pelos seus pais.
            As pausas de silêncio iam ficando maiores. Era possível que os velhos tivessem se cansado por aquele dia. Ele ficava tentado a se perguntar quando seria a próxima sessão, mas a experiência lhe ensinara a aproveitar a calmaria mergulhando fundo na apatia e depois soltando a imaginação, deixando-a guiá-lo por onde desejasse, afinal a próxima vez viria irremediavelmente, e tudo que podia fazer era torcer para que se atrasasse um pouquinho e, se possível, não o encontrasse em casa.

Um comentário:

Eduardo Prazeres disse...

O tom intimista deste conto é um elemento representativo da linguagem de todo o livro em projeto. Por isso acho que o título do livro vai ser homônimo ao do conto.