quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Editoras Virtuais - cadê a alma do negócio?

Uma das alternativas de publicação mais acessíveis ao escritor iniciante hoje são as editoras virtuais. Existem várias delas na rede, atuando sob variados parâmetros e oferecendo ao escritor a possibilidade de ver o seu livro exposto ao público, muitas vezes sem sequer um investimento financeiro inicial, exceto as despesas com revisão e o registro da obra ( pois algumas delas oferecem até mesmo o serviço de diagramação e a arte da capa gratuitamente).
            Até aí, tudo bem. Parece estarmos falando de uma maravilha da nossa época. E de fato estamos. Afinal, qual o escritor que, no passado, pôde dizer com sinceridade “Publiquei um livro”, sem que nenhuma página tivesse sido impressa? É verdade que entrar num espaço virtual, como um site, não é a mesma coisa que entrar no ambiente físico de uma livraria, nunca será. Mas, por outro lado, é inegável a satisfação que um escrito sente (principalmente se for um escritor iniciante, desconhecido na mídia) em poder dizer que seu livro está à venda em “www ponto alguma coisa”.
            E aqui entra uma questão crucial – na verdade, “a questão”, aquela que me moveu a escrever este post.
            O que seria apenas uma satisfação, uma comemoração para o escritor, se transforma numa imprescindível obrigação – dizer a todos que seu livro está publicado e onde está publicado, ou seja, se autopromover ( sob pena de jamais ter um exemplar vendido, se não o fizer).
            A princípio, isso pode não parecer um grande problema, pois, depois do ato de escrever, nada pode ser mais prazeroso ao escritor do que poder falar do seu livro para as pessoas, da paixão com que o escreveu, das dificuldades enfrentadas e superadas durante o processo, de como surgiu a ideia inicial, etc. E tudo isso deve ser mesmo um mar de rosas, quando feito numa roda de amigos ou familiares, numa atmosfera fraternal, de pessoas curiosas pelo seu trabalho. Agora, quando fazer isso (tendo que buscar estratégias diferenciadas) se torna “a condição” para fazer o livro chegar até o público, a coisa muda de figura.
            Qualquer pessoa com experiência em marketing e vendas (ou simplesmente com bom senso) sabe o quão necessário se faz um preparo profissional específico para se obter êxito nessas áreas. E um escritor, que normalmente já precisa exercer uma profissão paralela à literatura, para se sustentar, nem sempre já possui esse preparo ou terá os meios de obtê-lo.
Um livro – físico ou virtual – é um produto. E, como tal, seu carma, o objetivo de sua existência está traçado: precisa ser vendido. Acontece que nem sempre um ótimo escritor chegará aos pés de um péssimo vendedor. Isso é fato. E digam o que disserem, o escritor não tem a obrigação de ser um vendedor.
            Certamente o escritor pode, e deve, participar da campanha de promoção do seu livro. Porém, se ele tiver de “assumir” toda a responsabilidade por essa campanha, a possibilidade de que ela seja realmente eficaz é bem menor.
            Acredito que este seja um ponto de reflexão digno de atenção para as editoras virtuais, das quais muitas já possuem um vasto catálogo de títulos publicados, mas que não vendem. Ou vendem tão pouco que dá para dizer mesmo que não vendem. E isso porque, depois de fazerem um ótimo trabalho com a preparação dos originais e criarem um layout para cada livro dentro do site, simplesmente deixam a critério do autor avisar ao mundo que seu livro existe e está lá. Um sutil “te vira”, nunca pronunciado, é pressentido pelo autor.
            E, ao procurar uma livraria para propor a boa e velha consignação dos seus livros, o autor consegue ler, lá no fundo dos olhos do administrador ou proprietário, a mal disfarçada pergunta: “Por que ele está aqui , e não um agente de vendas da sua editora?”
            Tudo bem que hoje existem formas alternativas de divulgação: e-mail marketing, blogs pessoais, redes sociais de um modo geral. Mas estes ainda são mecanismos que colocam sempre o escritor na linha de frente da divulgação do seu livro. Sozinho, obrigado a hastear o mais alto possível a bandeira da sua utopia. E quando um escritor publicado por uma editora virtual faz isso, está oferecendo à sua editora algo que devia receber dela: publicidade. Pois, ao divulgar o seu livro, precisa necessariamente oferecer o endereço do site da editora. E ao entrar no site, o leitor vai se deparar com o catálogo geral de obras publicadas, podendo até mesmo mudar de idéia sobre que livro adquirir, o que para a editora não faz diferença, mas para o escritor FAZ.
            Diante disto, uma mudança no projeto de marketing (ou a implantação de um) se faz urgente nessas editoras. Se, ao publicar um novo livro, em vez de apenas adicioná-lo ao seu catálogo, crescendo APENAS quantitativamente, a editora promovesse a obra de forma individual, focando os pontos fortes do livro e do autor, levando ao conhecimento do maior número de pessoas possível, através de uma ação publicitária consistente, que o livro agora existe e está ao alcance de todos, é provável que com um quarto do número de obras publicadas em seu catálogo a editora faturasse o que jamais faturou com toda a “pseudopublicação” atual.
            Se o preço disso é uma redução no número de obras publicadas, pois que seja feita a redução. O que não significa rejeitar as propostas de edição dos autores, que, inquestionavelmente, são sempre maiores que a demanda do público leitor brasileiro. Não, não se trata de nivelar a questão por baixo, de fechar as portas para quem busca uma oportunidade no mercado editorial. Como escritor, não tenho o menor interesse nesse tipo de boicote ao talento e à criatividade. Mas também não estou interessado em “me iludir”, em acreditar que meu livro foi publicado quando ele apenas foi adicionado a um catálogo na condição de “mais um”, apenas para fazer volume, continuando a ser tão anônimo quanto antes de virar uma tira de pano invisível numa colcha de retalhos.
            Se o processo de seleção e edição de obras, por parte das editoras virtuais, é ágil e sem burocracia, ótimo, isso é maravilhoso. O sistema de impressão por demanda permite que se publique uma infinidade de títulos a custo zero? Perfeito! Aleluia! Mas por que não publicar periodicamente e em blocos? Sim, blocos com uma quantidade X de obras, em períodos determinados. Só assim poderia se pensar em ações como “pré-venda”, e dar um nível mais satisfatório de destaque para cada obra publicada. E esta é apenas uma possibilidade. Outras, até melhores, poderiam ser estudadas e efetivadas.
            Atualmente tenho um livro de contos publicado por uma editora virtual, que tem um site muito bonito, que disponibiliza o livro nos formatos impresso e e-book, que colocou o livro no site da Livraria Cultura e se comprometeu a, em breve, expô-lo também no Amazon, site mundial.  Detalhe: alguém aí que não faça parte das minhas redes sociais e não tenha sido avisado diretamente por mim, sabe de que livro estou falando? Eis a questão.
            Se provoco, é porque quero a melhoria de algo que está no caminho certo e que pode dar certo sim. Porém, o próximo passo é uma pequena mas inadiável mudança de postura no que diz respeito à propaganda. Só experimentando, poderemos confirmar.
Eduardo Prazeres

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