segunda-feira, 26 de setembro de 2011

DIÁRIO DE UM ESCRITOR ERRANTE - post 2

Continuação de Caxias



( Manhã de 15/09/11 – quinta-feira )

Quando levantei percebi que não tinha levado para a viagem sabonete, creme dental e escova de cabelo. Tomei um banho só com água, pus a minha toca na cabeça e saí em busca de um supermercado. Comprei o que precisava e voltei para a pousada. Eu tinha visto a lanchonete do posto de gasolina aberta e achado que ali seria o lugar perfeito para o café da manhã, mas quando perguntei descobri que só havia caldo de cana e coxinha. Até que eu gosto das duas coisas, mas pela manhã, em jejum, não era exatamente o café dos sonhos. Porém, como a pousada fica num ponto já meio afastado, eu sabia que a minha segunda opção seria sair procurando outro lugar pelo bairro a fora para tomar café, gastando sabe-se lá quanto tempo. Acontece que eu estava eufórico para sair logo vendendo meus livros; tempo era uma coisa que eu não podia perder. Encarei o caldo de cana com coxinha.

Tomei um banho de verdade, me arrumei e, como eu havia previsto, tive de pegar um moto-taxi, pois do posto Vila Nova ao centro de Caxias era bem longe para quem ainda teria de caminhar para vender o dia inteiro. Pedi ao moto-taxista para me deixar na praça da igreja matriz, e mais uma vez tive de enfrentar o terrível incômodo de colocar um capacete. Definitivamente, Deus me fez com uma cabeça nada adaptável a capacetes ( ou então são as indústrias desse tipo de objeto que acham que todas as pessoas do mundo  estão dentro das medidas das suas formas ); isso sem falar nos trinta minutos penteando e ajeitando o cabelo dentro do boné, tudo em vão. Mas, afinal, capacete não é uma mera questão de ser politicamente correto, e sim de segurança. Assim, eu tive de colocar o maldito capacete (que, como sempre, quase não entrou na minha cabeça).

Desci em frente à igreja matriz, arrumei o cabelo dentro do boné, olhei para as lojas e o movimento nas ruas, respirei fundo e disse: “É isso aí. Vamos lá!”

Eram quase dez da manhã; eu sabia que não adiantava tentar vender nada para os comerciantes antes desse horário; normalmente eles vão dizer “Ainda não entrou nada hoje, passe outra hora.”

Estava começando meu primeiro dia de divulgação do meu livro em Caxias. Estranhei a sensação de cansaço logo nos primeiros comércios visitados; talvez senti isso porque havia muito tempo que eu não fazia esse trabalho; venda externa não é moleza; tem gente que se apaixona pelo ramo, faz tudo com uma empolgação tão grande que nem parece ser um trabalho tão duro; mas é; venda externa é um trabalho muito duro, e eu tinha acabado de me lembrar disto.

Outra coisa que eu já sabia por experiência própria era que não adiantava entrar nas grandes lojas, cheias de funcionários. Nelas, o acesso ao gerente ou proprietário é difícil, e quando se chega neles geralmente estão tratando de negócios com alguém, pessoalmente ou por telefone, e nem sempre dão atenção a alguém que chega tentando lhes vender alguma coisa. Os funcionários quase nunca compram porque quase sempre estão sem dinheiro. Por isso, o melhor é procurar os pequenos estabelecimentos, aqueles em que se fala diretamente com o proprietário. Pois este, caso se interesse pelo produto, não vai poder dizer (pelo menos com sinceridade) “Passe outra hora, quando o patrão estiver aqui.” Com ele vai ser sim ou não, isto dá mais estímulo ao vendedor (ao menos no meu caso, que não sou bem um vendedor).

Consciente de tudo isso, fui fazendo meu trabalho. A primeira venda começou a demorar acontecer, e eu comecei a ficar tenso. Então me concentrei no “tempo de trabalho”. Tudo que eu tinha de fazer era entrar nos comércios e falar do meu livro para as pessoas até que o relógio marcasse 12 horas. Não importava quantos “não” eu ia receber, eu só tinha que fazer aquele trabalho até o meio dia. O resultado viria de alguma maneira. E veio.

Entrei numa farmácia, mas ela estava tão cheia de gente que eu me dirigi direto à balança; encostei minha pasta cheia de livros na parede, ao pé da balança, e comecei a subir para me pesar sem tirar a mochila das costas; me toquei a tempo, tirei a mochila e subi. Quantos quilos? Não me lembro, não estava prestando a menor atenção naquilo; normalmente peso entre 75 e 77.

Quando desci da balança notei que um senhor loiro, do lado de dentro do balcão e com jeito de proprietário, estava me observando; eu não podia perder aquela chance, e caminhei na direção dele imediatamente. Apresentei-me e comecei a falar do meu livro, entregando-lhe um exemplar. Sem me obrigar a falar muito, ele comprou. “Isso! É isso, garoto” – comemorei.

A primeira venda do dia é sempre como um banho restaurador das energias. E cheio de gás, prossegui.

Um senhor de uma lojinha (que eu não me lembro do que era) começou a me fazer um discurso sobre a importância dos poetas e a ingratidão e ignorância do público. Vi que aquilo iria longe se eu deixasse, mas não me ajudaria a pagar as despesas do dia. Então perguntei se ele gostaria de ficar com um exemplar do livro. Ele respondeu que me desejava toda a felicidadedo mundo, me devolveu o livro, e eu me mandei.

Aproximei-me de uma mulher jovem que estava em pé na porta de um supermercado, usando uma camiseta com a logomarca e o nome do comércio, e que também tinha o jeito de proprietária (se alguém me pedir para explicar o que é o jeito de um proprietário, estou ferrado; acho que é uma coisa meio intuitiva). Eu estava com quatro exemplares do livro numa mão, a pasta na outra e a mochila nas costas; e enquanto eu falava com a mulher, entregando-lhe um dos exemplares para olhar, um dos exemplares que eu segurava caiu no chão diversas vezes. Eu me agachava, pegava o livro e recomeçava a falar, e ele tornava a cair. Foi uma cena patética, que eu simplesmente não consegui evitar. Talvez por me ver tão atrapalhado a mulher não mostrou o menor entusiasmo pelo meu trabalho, e eu sai dali desejando nunca ter me aproximado de lá.

Continuei entrando e saindo ruas pelo centro de Caxias. De repente viro à direita, entrando numa rua estreita. Era quase meio dia. O primeiro estabelecimento em que encostei era uma ótica. O segundo também. O terceiro... bem, o terceiro era outra ótica. Olhei para o outro lado da rua e vi mais uma ótica. E ao lado dela, outra. “Peraí, só tem ótica nessa rua?”. A resposta era sim, pois, como eu viria a saber mais tarde, o nome daquela rua era Rua das Óticas, e não por qualquer motivo.

Alguns portões já começavam a baixar, enquanto o sol subia e se fortalecia cada vez mais. O resultado das vendas daquela manhã de trabalho duro não estava muito animador. Eu também estava precisando de um intervalo, e comecei a procurar algum lugar para almoçar, enquanto lutava por mais alguma venda. Esta não veio, mas o lugar para almoçar encontrei. Um restaurantezinho improvisado numa pequena varanda, no quintal de uma casinha, bem numa esquina da Rua das Óticas, onde havia também um ponto de moto-táxi do outro lado da rua. Era almoçar e voltar para a pousada.

E assim eu fiz.

( continua no próximo post )

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