terça-feira, 3 de dezembro de 2013

UMA NOITE, UMA GAROTA



Aos fantasmas de

Plínio Marcos, Jack Kerouac, Caio Fernando Abreu,

 Allen Ginsberg e Torquato Neto – eternos assombradores do “bel-letrismo”.



E para meu querido e imortal “vida louca” – Cazuza.



PRÓLOGO





         Há dias em que o tédio da vida não pode ser quebrado nem mesmo pela companhia dos melhores amigos, porque somos acometidos pela impressão de que até a força que vem disso se desgastou, e não traz emoção.

           A cidade vira um mundo em ruínas pelo qual queremos apenas vagar sobre os escombros, sem nos importarmos com seus fantasmas sedentos de libertação e paz. Não queremos ser a esperança de ninguém porque nós mesmos já não temos esperança.

            No entanto, se no meio dos escombros encontramos algo intacto, compreendemos imediatamente que somos parte disso que encontramos, porque apesar da dor estamos inteiros no meio dos cacos – e pertencemos a isso tanto quanto isso nos pertence.

            A fronteira entre o que somos e o que encontramos se rompe nesses dias de sol noturno. O tédio enfim se dissolve, e alguma coisa em nosso íntimo diz que ainda resta algo grandioso a ser revelado. E mesmo que por um instante a gente vacile, o desejo de ir até o fim será sempre maior.









capítulo 1



Dina, o nome dela era Dina. Quer dizer, o pseudônimo dela era Dina, porque o nome verdadeiro segundo ela me disse ninguém sabia, nem o nome nem o endereço. Ela parecia muito na dela quando a encontrei com o Frank na p2 (apesar do elogio que fez aos meus dentes, logo os meus dentes de vampiro; daí já senti que ela era meio doida e fiquei interessadíssimo) . Mas depois me convidou pra sentar do seu lado, e eu, do fundo da minha esquisitice resisti um pouco. Então ela insistiu, aí eu cedi segurando a minha onda pra não mostrar o prazer com que cedi. O Frank começou a bater papo com um cara que apareceu e a nossa conversa ficou só entre eu e ela – adorei isso. Foi logo me contando da vez que tomou um monte de comprimidos e furou os pulsos. “Furei” ela disse, “e não cortei, é por isso que não ficou marca”.

Eu tinha entregado pra ela, na hora que cheguei, um exemplar de um conto meu, impresso em folheto e reproduzido em xérox, e talvez por isso e também porque  comecei a mexer nos seus cadernos ela me mostrou uns poemas que escrevera, mas só deixou eu ler um, quer dizer – ela leu. A gente continuou falando sobre essa coisa de se matar e sobre outras coisas, até que ouvi a voz do Frank dizendo “Vou ali galera. Volto já”. Mas só ouvi, nem olhei pra ele saindo com o outro cara porque nesse exato momento ela estava sorrindo e a boca dela sorrindo era exuberante. Perguntei se ela estava com o Frank, ela respondeu que não. “Massa” – pensei logo.

  – Tu fuma? – ela me perguntou.

  – Cigarro?

  – Não. Cotonete . Sabia que essa tua cara de santinho não me convence? Um cara que escreve contos não pode ser tão lerdo assim. Tô falando de coisas que quebram o gelo, cara.

  – Baseado.

  – Bingo!

  – De vez em quando, mas geralmente é de carona. O  Frank deve ter.

  – Se não tinha agora ta na fartura. O outro cara lá é trafica. Mas é vacilão, eu já disse pro Frank; qualquer hora vai se dar mal e ferrar todo mundo que pega com ele. Mas deixa quieto, é melhor mesmo a gente ficar sem. Ultimamente fico deprimida quando fumo.

 Não soube o que pensar por alguns instantes. Ela era uma garota linda e não era nem um pouco santa. Sei que isso é meio sádico, mas pra mim esse era um detalhe que fazia dela uma ninfeta perfeita. Involuntariamente comecei a fantasiar momentos de luxúria total entre a gente. Cometi o descuido de deixar que ela percebesse os meus olhos abstraídos. Ela sorriu.

 – Cê não é dessas coisas, né?

Passou a mão no meu rosto com uma ternura meio sacana e meio maternal.

 – Ei, também não sou o cara mais careta do mundo  – me defendi logo. Mas foi pior, porque os olhos dela atingiram o apogeu da ternura e eu sabia que aquilo era por me achar ingênuo, carinhosamente um belo manezão.

 – Eu sei  – ela disse recolhendo a mão e reassumindo a expressão séria.  Depois falou:

 – Tá vendo aqueles malucos ali? – apontou para os hippies confeccionadores e vendedores de bijuterias da praça  -  não são hippies de verdade, são pseudo-hippies, são carinhas que quando a barra pesa pra valer voltam pra suas casas e relaxam no sossego da família. Os hippies eram outra coisa...

 – Tinham mais atitude e eram mais conscientes – interrompi.

Ela me olhou novamente, mas dessa vez sem aquela ternura piedosa e aborrecível. Me olhou, assim, me sacando.

 – A gente tem afinidades  – falou como se confessasse. 

 (continua)

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