quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

UMA NOITE, UMA GAROTA - post 3



Capítulo3


Dina havia me dito que não comia há dois dias. Tinha entrado numa de fazer regime e coisa e tal, estava se achando gorda (uma delícia de corpinho; eu senti vontade de dizer isso bem baixinho pra ela, mas não disse). Então propus um lanche, ela topou. Fomos tomar suco com salgados numa lanchonete ao lado do 4 de Setembro. A lanchonete estava vazia e eu fiquei surpreso com o que ela me pediu.
   Me conta a tua história.
Ela havia me falado à tarde de uns “pacientes” seus -  pacientes de psicoterapia! Detalhe: Dina tinha dezesseis anos. De verdade, dezesseis aninhos. Fazia o segundo ano do ensino médio e queria ser juíza e pianista. Por enquanto ia praticando a psicanálise apenas com base na “lógica”. Era todo o seu método – a lógica.
Pois bem, meio achando que ela estava querendo praticar comigo, meio achando que ela só queria me conhecer melhor, fui contando tudo enquanto comíamos. Quando acabei de falar foi a minha vez de ouvi-la, e pela primeira vez em todo aquele tempo eu a achei chata, chatíssima, um pé no saco com toda aquela série de  considerações “lógicas” encima do que eu tinha dito. Suspirei aliviado quando enfim ela parou e prometi a mim mesmo que se ela recomeçasse eu invocaria todas as minhas forças para ter a coragem de estragar tudo e mandá-la tomar no cu. Mas logo tivemos que sair porque começaram a baixar as portas da lanchonete. Cruzamos novamente a p2, passamos pelo belo (e profano) templo de São Benedito e fomos nos sentar num banco na Frei Serafim. Havia nuvens, ia chover. Depois de termos conversado ali dispersivamente por um tempo enorme não me contive mais e lhe disse abertamente que tinha ficado a fim dela. Mas facilitei muito dizendo que não precisava falar nada se não tivesse sentindo o mesmo. Ela desconversou dizendo que não estava interessada em ficar com ninguém naquele momento, aquele papo de dar um tempo pra si mesma e etc., um jeito cortês de dispensar um otário. Depois pediu pra gente ir ficar na parada do ônibus dizendo que ia chover e já eram quase dez horas. Fomos.
            Ficamos sentados na calçada a alguns metros da parada cheia de gente, e só ali ela me contou sobre o seu pai alcoólatra e das vezes que o encarou em defesa da mãe e dos irmãos, contou também de quando foi morar com umas tias e isso me fez lembrar Chordelos de Laclos e suas Relações Perigosas, porque ela me disse que suas tias lhe ensinaram a ser “atriz”, a ser “fria”, a como usar as pessoas para se conseguir o que se quer. Fiquei estupefato. Falei algumas coisas que pensava sobre isso mas sem bater de frente com ela, não só pra agradá-la mas porque a entendia, entendia a sua necessidade de se proteger.
Daí a pouco, bem no meio do seu relato, ela simplesmente se levantou dizendo – “Aí vem o meu ônibus”, pegou a mochila e os cadernos e se mandou, enquanto eu ficava olhando com a maior cara de buceta que um ser humano já havia sido capaz de produzir. Minha segunda-feira de sorte acabava de se transformar numa sexta-feira 13.
E eu não sabia, mas a noite só estava começando a ficar estranha. 

(continua)

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