segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O dia em que Natasha me deu seus olhos

“A arte é uma mentira que conduz à verdade.”
Pablo Picasso


O tempo é uma grande mentira, a maior que criamos para nós mesmos.
Eu tentava me concentrar na lembrança daquele acontecimento e não me preocupar com a imensa caminhada que teria de fazer, do centro da cidade até a Santa Maria, enquanto o ônibus disparava no asfalto. A noite tinha caído com uma temperatura amena para uma noite de outubro em Teresina. O vento entrava com estupidez pela janela do ônibus, espancando meu rosto e quase arrancando meu boné com mãos dispersas e intangíveis.
         Mas eu estava feliz, só conseguia pensar no olhar dela, no jeito como a gente se olhou aquela tarde. Na verdade, ainda que eu quisesse pensar em problemas, seria uma fútil tentativa de negar o quanto aquela garota havia se tornado o centro do meu mundo, ( faz tempo que perdi o medo das ridicularizações que sofrem os românticos ).
         Havia três moedas de vinte e cinco centavos na minha carteira. Isso me deixava a um realda passagem do outro ônibus que precisava pegar para escapar da caminhada odisseica. O último crédito do meu cartão de estudante tinha acabado de expirar, não lembrava quanto ainda restava ao sair de casa para o Dirceu, à tarde, e agora estava nessa saia justa. Porém isso são coisas de que sei agora, porque naquela noite eu estava entorpecido pela idéia de que Natasha também começava a me amar, e o resto do mundo com todas as suas coisas e complicações simplesmente não existia.
         Estudava teatro há dois anos, no Teatro Municipal João Paulo II. Eu tinha dezoito anos e era o mais velho de uma turma de adolescentes. Eu era mais velho, inclusive, que Natasha. Ela tinha catorze. Vi quando ela chegou, aos doze anos, eu com dezesseis. Era magrinha, não muito, não como essas menininhas com doença de modelo, mas dava pra ver que seu corpo ganharia formas muito atraentes dali a um tempo. Meu primeiro olhar pra ela não chegou a ser um olhar de desejo, mas alguma coisa que prenunciava isso. Ela tinha um jeito meio arredio, não ficamos amigos de imediato. Demorou muito pra que ela mostrasse um sorriso pela primeira vez. Mas enfim, sorriu. E mesmo assim ainda não ficamos amigos, e não tenho certeza se ela já era uma paixão ou não. Mas alguma coisa existia, muito sutil, apenas insinuada, um pequeno broto hesitante, com medo de romper o solo e vir para a superfície.
         Naquela tarde eu e Natasha trocamos um “olhos-nos-olhos” que não durou mais que uns vinte segundos, por aí, mas da minha parte posso dizer que se Cupido existe mesmo, pude ouvir sua voz sussurrando todas as promessas possíveis de felicidade a um homem apaixonado através daquele olhar. Por um instante ( que eu eternizo e abençôo ) mergulhamos um no outro, nos misturamos num liquidificador cósmico de almas sinceras, conheci todos os mistérios e desejos de sua alma, e ela viu todos os meus medos, ainda que eu tenha desejado escondê-los – ela viu meus medos, e viu também o principal deles: o de não estar tão junto do seu corpo um dia como estava junto de seu espírito agora.
         O tempo é uma grande mentira, a maior que criamos para nós mesmos, pois aqueles vinte segundos jamais poderiam ser compreendidos numericamente por um aparelho idiota.
         Estávamos sentados em círculo, como sempre fazíamos no final da aula, para avaliar e discutir os exercícios e jogos do dia. O professor falava das coisas que deveríamos tentar aprender com tudo aquilo, era um cara legal, tentava falar simples, às vezes ficava puto com a desatenção de alguns, dava um coió, o rosto fazia-se vermelho, os olhos enchiam-se de uma cólera tão passageira que a gente precisava estar muito atento pra perceber, porque no fundo no fundo ele amava a gente, sabíamos disso. E eu começava a desconfiar que ele amava Natasha muito mais do que a todos ali, seus olhos traíam a sua intenção de esconder isso, eu via claramente.
         Foi quando busquei, disfarçadamente, lançar uma olhadela para aquele belo rosto moreno que nas últimas semanas não saia da minha cabeça, e dei de cara com as lentes de contato verdes que ela usava agora no lugar dos óculos, ficando mais irresistivelmente linda. Ela começara a usar óculos há quase um ano, fiquei louco quando a vi com eles pela primeira vez ( para mim, toda mulher quase perfeita seria perfeita se usasse óculos ). Porém, de uns meses para cá, ela os substituíra pelas lentes de contato. Verdes. Um par de olhos verdes para cabelos castanhos e pele morena clara. Praticamente um golpe baixo na minha vontade de esconder o que começava a sentir.
         Mas então, ela também estava me olhando. Já estava quando me virei, e isso facilitou para que eu sustentasse meus olhos nos seus. Ela não desviou, achei que faria isso, mas não fez. Achei que eu faria isso, mas não fiz. E nos olhamos. Por uns vinte segundos. Sim, talvez tenha sido mesmo por uns vinte segundos. Nós nos olhamos.
         Eternamente. Nós nos olhamos eternamente por uns vinte segundos.
         Vi o sexto dia da criação, entendi a solidão de Adão e porque Deus lhe deu Eva. Talvez Eva se parecesse com Natasha, talvez por isso Adão a tenha amado tanto. É possível que às vezes os dois ficassem assim, se olhando eternamente por alguns segundos no Jardim do Éden.
         Não lembro mais de nada daquele dia que tenha ocorrido antes desse olhar. Na verdade, gostaria que nada mais tivesse existido antes nem depois daquele olhar. Queria que toda a minha existência tivesse sido aquele momento, aquele exato momento em que nossas fronteiras mais íntimas se abriram, e adentramos um universo que não era triste nem escuro, porque nós estávamos juntos, iluminados por uma luz que advinha do encontro do que éramos um para o outro naquele momento que nunca acabou.
         A aula acabou. As coisas marcadas pelo relógio sempre acabam. Fomos todos para casa. Natasha com seus olhos verdes de mentira, porém verdadeiramente lindos. Qualquer mentira em sua beleza verdadeira se tornaria tão linda quanto ela. O professor com sua paixão silenciada, mal disfarçada, também foi para casa. Eu com minhas três moedas de vinte e cinco centavos no bolso e a riqueza imensurável de um olhar eterno trocado com Natasha, também fui para casa.
         Desci do ônibus no centro, e me pus a caminhar sem nenhum aborrecimento, nenhuma lamentação, nenhuma pressa de chegar em casa. Passei por ruas desertas, estreitas, mal iluminadas. Quando enfim cruzei a fronteira centro/zona norte, olhei a imensidão da rua Rui Barbosa, e decidi que seguiria por ela até o Mafrense, onde pegaria um atalho para o Poty Velho. E assim fiz.
         Tudo o que eu via por onde passava, bares, farmácias, padarias, restaurantes, escolas, barracas, gente, carro, ônibus, bicicletas, supermercados, todas as coisas do mundo, tudo isso estava misturado ao rosto lindo de Natasha – que era a única coisa que eu via de verdade.
         Subitamente, obedecendo à minha velha mania de enfiar as mãos nos bolsos enquanto caminho, meus dedos esbarraram em algo. Senti a textura áspera do papel e puxei para fora. Completamente incrédulo, deparei-me com uma nota amassada de cinco reais. Sorri para mim mesmo. Sim, eu era o maior idiota do mundo, e não seria fácil me tirar desse posto.
         Não fazia a mínima idéia de como aquela nota viera parar em meu bolso, mas conhecia muito bem o meu péssimo hábito de esquecer dinheiro nos bolsos das calças ( como se tivesse direito de fazer isso ). O fato é que já havia chegado ao Poty quando encontrei a nota, e fiquei hesitante.
         Depois de alguns minutos correndo os olhos da parada de ônibus para a agência de moto-taxi, decidi-me pela moto.
Cruzamos a ponte, eu e o motoqueiro, e nos lançamos pela avenida Poty, rumo à Santa Maria. A paisagem era rural, por isso o céu parecia mais bonito de ver. Aquilo me fez pensar novamente no paraíso, em Adão e Eva – Natasha e eu.
Natasha.
Eu.
Seria possível, Natasha? Seria possível que aquele nosso olhar eterno de uns vinte segundos fosse um sinal, a mão de um anjo chamando Adão e Eva de volta ao Jardim, para viverem e amarem, completamente perdoados?
Feche os olhos, Natasha. Vou dizer agora que amo você, e quero que ouça com todo o seu coração. Por que o amor, Natasha, o meu amor por você eu digo em voz alta na distância, mas em silêncio dentro dos teus olhos.




Autor:Eduardo Prazeres

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