segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Leia de graça trechos de um romance inédito


 
Nota: Crispim e a Sétima Virgem é o meu primeiro romance, depois de dois livros de poesia e um de contos. Uma história à base de suspense, romance e sobrenatural, inspirada na lenda piauiense do Cabeça de Cuia. Postei aqui os 5 primeiros capítulos como amostra grátis, e em breve o livro estará saindo integral, provavelmente numa publicação independente. Fico feliz se, após ler este trecho do romance, você deixar algum comentário. Boa leitura!




    
HUMANAE VITAE

O menino minguante
vem do rio das fêmeas.
Nascido ao poente
seu dia parado
sem pressentimentos.
Sem socorro
de remédio
seu transe de fome
do rio do sono
ao rio das mortes.

H. Dobal








Esclarecimento

         O misticismo presente neste livro não possui caráter de apologia. As referências a magia e à doutrina da reencarnação fazem parte da estrutura da obra, mas apenas em seu aspecto folclórico, ajudando a compor o universo ficcional da história de Crispim.
            Embora tenha imenso respeito pelos milhões de pessoas, no mundo inteiro, que cultivam tais crenças, desejo deixar claro que eu não as compartilho. Mesmo sem pertencer a nenhuma denominação ou entidade religiosa específica, considero-me essencialmente cristão. Minha única forma de devoção espiritual é a oração direta à pessoa de Jesus Cristo, sem uma ritualística estabelecida, a não ser jamais orar sem camisa.
            Gosto de temas fantásticos porque eles são a ferramenta perfeita para expandir a imaginação, para transcender o corriqueiro e ( ainda que apenas metaforicamente ) a condição de mortal.
            Quanto à lenda de Crispim, pergunte a um teresinense do que ele se lembra ao olhar para as águas do Parnaíba e do Poty...


O autor





PRÓLOGO


Existiu um velho artesão – cuja fama devisionário o destacava dos demais – que viveu na ilha se Santa Maria ( Arquipélago dos Açores ) até o começo da segunda metade do século 19. Todas as tardes ele sentia a necessidade vital de contemplar o pôr-do-sol sobre as rochas, na beira da praia. Certa vez, em meados de 1854, esse homem encontrou um objeto exótico e aparentemente sem a menor importância, que ele bem poderia ter atirado de volta ao mar antes de voltar para sua casa na pequena aldeia. Porém, sua sensibilidade de artista místico viu naquele objeto a matéria-prima para a criação de algo que pudesse abrigar um grande poder e ter a originalidade sugerida pelos próprios detalhes do objeto – sete pequenas manchas vermelhas, todas no formato de setas.
            O objeto era de material orgânico – osso – e, chegando em casa, naquela mesma noite o velho fabricou com ele sete pequenas setas, cortando o objeto e modelando as partes com toda a perícia de suas mãos.Com muito esmero, o artesão fundiu algumas peças de prata de sua propriedade, e com isto confeccionou uma caixinha onde segredou as setas de osso, ainda manchadas de um vermelho que ele bem compreendia.
No dia seguinte, pela primeira vez em muitos anos, o artesão não foi ver o pôr do sol sobre as rochas. Na verdade, depois daquele dia ele nunca mais foi visto na beira da praia. Tornou-se recluso, como se fora de casa nada fosse mais tão interessante.E, segundo relataram seus parentes posteriormente, depois daquela noite o velho passou a ter sonhos misteriosos, sonhos que não o amedrontavam, mas mudaram seu comportamento dali em diante.
Ele chamou os filhos e lhes declarou que as sete setas jamais deveriam ser tocadas ou removidasde sua casa, até que seu verdadeiro dono viesse buscá-las. Falou de um estranho que um dia viria até sua casa buscar as sete setas de osso, e lhes deu um código que ajudaria a identificar o estranho, caso já estivesse morto quando ele viesse.
Mais de cento e vinte anos depois, o tal estranho finalmente apareceu.
– Vim buscar as sete setas de osso, fabricadas por seu trisavô – disse ao descendente do artesão.
 – E como ficou sabendo da existência delas? – indagou o guardião das setas, um homem na faixa dos cinqüenta anos.
 – Sou um mago e possuo alguns dons – respondeu o estranho.
 – Há uma condição para que eu entregue as setas.
 – Eu sei. E é por isso que você vai entregá-las a mim.
Depois de provar que era aquele por quem esperavam e receber a caixa de prata das mãos do aldeão, ciente do poder contido ali dentro, o homem não reprimiu seu desejo de ver e tocar as setas. Abriu cuidadosamente a caixa e contemplou o seu interior. Ali estavam, diante de seus olhos, ao alcance de suas mãos, os sete pequenos objetos feitos pelo antigo artesão. Subitamente uma luz cintilou no fundo da caixa, prendendo o seu olhar; a luz foi aumentando de intensidade e, na medida em que isso acontecia, ele sentia que suas pernas iam perdendo o vigor; a luz ficou insuportavelmente forte, o homemdesequilibrou-se e caiu. O trineto do artesão veio em seu socorro, sem fazer a menor idéia que, daquele momento em diante, o homem estava paraplégico.
O estranho então compreendeu que, ao contrário do que tinham imaginado, não era ele quem estava destinado a manusear as setas, mas teria apenas a missão de conduzi-lasaté encontrar o escolhido.  E o escolhido para manusear as setas passou a ser chamado de Arqueiro, o qual teria um jeito específico de ser identificado. O homem sabia bem qual era.
Mas quando o Arqueiro fosse encontrado e o objetivo das setas fosse revelado... Uma grandiosa missão e um desafio inigualável estariam apenas começando. 





CRISPIM E A SÉTIMA VIRGEM



Capítulo 1


         Aldo caminhava apressadamente pelo estacionamento do shopping. Sabia que tinha pouco tempo até que dessem pela sua falta lá dentro e começassem a procurá-lo. Ao aproximar-se do seu carro olhou para cima contemplando a noite límpida, cujo céu pontilhado de astros parecia ser também uma face que o olhava de volta, incógnita.
            Já ia estender a mão para abrir a porta do veículo quando sentiu que alguém se aproximava rapidamente por trás. Teve a sensação de que sabia exatamente com quem iria se deparar ao virar-se, surpreso por ter sido seguido de modo tão imperceptível.
            –Então era mesmo verdade?
            Aldo acertara. Virou-se para Jane. Trocaram um olhar duro em silêncio. Após um instante, ele fez menção de se voltar para entrar no carro, ignorando a presença dela. Porém ela o deteve, contendo a própria raiva para falar-lhe num tom mais cordial.
            – Espera. Não estou querendo forçar nada, só estou preocupada com você.
            – Eu sei. Mas se a única maneira de aliviar sua preocupação é fazendo o que me pediu, esqueça.
            Um pequeno silêncio.
            – Aldo, você não conhece essas pessoas. Nem mesmo sabe como chegaram até você. Uma gente que surge do nada, já sabendo tudo sobre a sua vida não pode ser confiável.
            – Jane, não sou herdeiro de nenhuma fortuna, não preciso assinar nenhum papel importante antes de morrer. Se quisessem me fazer algum mal, por que perderiam tempo armando todo um cenário? Como você mesma diz, é uma gente que surge do nada; poderiam também sumir no nada se quisessem, e não teriam o que temer.
            – Você não entende.
            – Tenho que ir agora.
            – Vou com você.
            – Já discutimos isso, lembra?
            – Você está em perigo, eu sinto isso.
            – Ok, e se fosse verdade? Vindo comigo e se expondo também ao perigo, resolveria tudo?
            “ Ariano teimoso “ – pensou Jane. A pele clara do seu rosto estava rubra de excitação. Conhecia bem o caráter decidido do namorado, sabia que pelo argumento não poderia dissuadi-lo.
            Ele, por sua vez, vendo o estado dela, se culpava agora por ter deixado a mesa de modo tão sorrateiro, largando-a na praça de alimentação do shopping com os outros dois casais de amigos; e por aquela ação ridícula de se demorar no banheiro mais do que o amigo que o havia acompanhado, para poder escapar.
            – Desculpe – disse ele, enternecendo a voz -, não queria ver você tão assustada. Mas preciso que confie em mim. Não pense que eu iria me arriscar irresponsavelmente. Tem razão, não confio inteiramente nessas pessoas, mas se estou dando um passo é porque a minha intuição me diz que há uma parcela de verdade muito grande nessa história toda. E eu preciso saber, entende? Não suportaria ficar me perguntando pelo resto da vida se tudo não passou de uma brincadeira de mau gosto e muito bem bolada. Quero que confie em mim ao ponto de deixar que eu vá sozinho aonde tenho que ir.
            – Vai ser esta noite?
            – Sim ,disseram que sim.
            – Você já viu o tal homem?
            – Ainda não. Quanto a isso parece que sou um privilegiado, porque me disseram que muitos fazem parte da irmandade há anos e nunca o viram pessoalmente. Mas hoje estará lá.
            – Aldo... Tome muito cuidado.
            – Fique tranqüila – tentou animá-la e a beijou carinhosamente. Depois olhou para o relógio.
            – Diga para o pessoal que fui arrastado por uns parentes distantes que encontrei e não via há muito tempo e...
            – Que horror! Você é péssimo para dar desculpas. Mas deixa isso comigo, eu invento outra.
            – Obrigado.
            Alguns minutos depois Aldo dirigia inquieto, grato pela tranqüilidade do trânsito de Teresina a noite, pois a verdade é que se encontrava eufórico e guiava seu Peugeot 307mecanicamente, sem muita concentração ao volante; e mal acreditava que Jane tivesse desistido tão facilmente de ir com ele. A obstinação dela a levara a prever o momento exato da sua tentativa de fuga. A rapidez com que ela o tinha alcançado no estacionamento havia sido incomum, e ele chegava mesmo a se questionar agora se ela não teria se dirigido para o carro antes dele, embora isso parecesse um pouco inverossímil. De qualquer modo, o que importava era que estava fazendo o que tinha de fazer, sem envolver a mais ninguém. Pelo menos, não diretamente.

* * *

            Enquanto o carro de Aldo cruzava a ponte ele olhou para o rio, lá embaixo e ao longe, notando que o reflexo da lua no leito do Poty era tão nítido que causava a impressão de um fenômeno em que determinada pedrasubmersa, num certo ponto, começasse a brilhar com luz própria, espargindo sua luminosidade por ambas as margens.
            E, para um pescador que remasse sua canoa naquela hora, o carro de Aldo seriam dois pontinhos luminosos deslizando velozes lá em cima, alcançando rapidamente a outra extremidade da ponte e desaparecendo cidade adentro. Se o mesmo pescador voltasseas costas para a ponte e para toda a paisagem urbana, teria a visão do curso do rio na contracorrente, que a cerca de meio quilômetro dali fazia uma curva à esquerda  e também desaparecia.
            No entanto, se o alcance da visão acabava naquela curva, o mesmo não ocorria com o curso do rio na direção da sua contracorrente, o qual se estendia fendendo a cidade e passando ainda sob duas pontes, até ultrapassar os limites urbanos, ao sudeste, entrando na zona rural e avançando em direção à sua nascente, a centenas de quilômetros.
            A água era tranqüila, a correnteza suave. E foi mais ou menos naquela região dos limites da cidade, na altura da parte mais interna do bairro Alegria, uma das áreas mais antigas de Teresina, que em algum ponto do leito do Poty a água, antes sossegada, começou a se agitar levemente. Aos poucos essa agitação foi crescendo em intensidade e diminuindo em área, até se concentrar num pequeno círculo. Algo realmente inconcebível, pois todo o restante da água ao redor continuava a deslizar mansamente, enquanto naquele ponto parecia se iniciar agora um processo de fervura, com um crescente borbulhar, cujas bolhas que nasciam e estouravam eram cada vez maiores e mais sonoras.
            Quando o estranho fenômeno ganhou definitivamente o aspecto de um caldeirão a pleno vapor, iluminou-se inexplicavelmente, com uma luz cem vezes mais forte do que a da lua refletindo na água e que parecia vir do fundo do rio. E o que sucedeu no instante seguinte foi uma incrível explosão, tão poderosa que arremessou diretamente na margem do rio algo do tamanho de um homem – ou muito maior. Imediatamente após isso, a misteriosa luz desapareceu como se fosse sugada de volta para o fundo, e num segundo o ponto de fervura aquietou-se, restituindo a paz absoluta ao leito do Poty.
            Na margem, contorcendo-se na areia e produzindo um som semelhante a um gemido abafado de dor, uma criatura de aparência inumana parecia investir num esforço desesperado de rastejar de volta até a água – de onde acabava de ser violentamente expelida –mas não tinha forças o suficiente.





Capítulo 2


         Deviam ser umas 3h da madrugada quando um barulho na cozinha fez Carol despertar de um sono já bastante instável aquela noite. Abriu os olhos e, um novo barulho, dessa vez não de objetos se chocando com o chão, mas um tipo de gemido abafado, ressoou pela casa.
            Carol se levantou rapidamente e correu assustada para a cozinha, onde encontrou dona Joana apoiada na porta da geladeira aberta, com um copo vazio na mão, e uma jarra de vidro havia se espatifado na cerâmica. Agilmente Carol amparou a avó e a conduziu para uma cadeira na mesa a dois passos; pegou o copo de sua mão e acariciou-lhe o rosto.
            – Vovó, o que houve? Outra crise de asma?
            As duas sabiam que a pergunta havia sido feita por puro nervosismo. Dona Joana não sofria de asma. É verdade que eventualmente fora acometida por leves asfixias, mas tão episódicas e sem diagnóstico médico consistente que não se podia afirmar que fossem sintomas asmáticos, sendo sempre atribuídas a algum tipo de alergia. Aos oitenta e dois anos de idade dona Joana podia mesmo era se gabar de uma saúde de ferro.
            Respirando fundo e esboçando um sorriso pálido, a velha disse:
            – Já está passando, filha. Desculpe o espalhafato. Fiquei meio zonza e perdi o tato por um instante. Queria só tomar um pouco de água.
            Evitando os cacos de vidro e sentindo a água gelada na sola dos pés, pois tinha se levantado descalça, Carol foi até a geladeira e trouxe a água.
            – Obrigada.
            – A senhora se sentiu mal agora, ou já faz tempo que está assim e não quis me acordar?
            – Estou acordada há um bom tempo, mas não estava sentindo nada. Só agora há pouco comecei a me sentir meio sufocada e com a garganta seca, e aí resolvi tomar um copo d’água.
            – Vovó, se não estava sentindo nada antes, o que a senhora estava fazendo acordada? Insônia é um problema que a senhora nunca conheceu. E depois que dorme, só um terremoto pra acordá-la.
            – Então deve ser por isso. Em Teresina nunca acontecem terremotos.
            As duas riram.
            – Ok, então já que está tão descontraída vai me contar o que deixou a gatinha acordada esta noite.
            – Me deixa respirar, menina. E se eu fosse você ia me calçar. Olha quanto caco de vidro.
            – Está bem. Vou me calçar, limpar esta bagunça e volto já pra te ninar. Vai ter que me aturar no seu quarto por hoje, não quero mais saber de sustos. Amanhã a gente conversa, e se for preciso vamos marcar uma consulta esta semana.
            – Quanto medo de perder esta relíquia de museu.

* * *

            As primeiras manchas alaranjadas do alvorecer borraram o horizonte no Leste. Aldo trancou a porta do seu apartamento e desabou sobre o sofá. Indagava-se ainda sobre o que havia acontecido, se tudo tinha mesmo sido real ou puro delírio. Pensava no homem que conheceu, em tudo que ouviu dele. Pensava na impressão extraordinária que lhe fora causada ao tocar no objeto que o homem lhe entregou.
            – Ah, meu Deus.
             Aldo alcançou a porta num salto, irritado por já no primeiro dia como guardião do objeto tê-lo esquecido no porta-malas do carro. Desceu correndo até a garagem do edifício, pegou o objeto e voltou.
            “ Se aceitá-lo, não poderá separar-se dele até que tudo esteja terminado “ – disse  o homem antes de entregar-lhe o objeto. “Você será o seu guardião. E apenas quando retornar a esta casa, deverá deixá-lo sob meus cuidados, para que eu o entregue a você definitivamente, quando chegar a hora.”
            E se agora tinha cometido o erro de esquecê-lo, não se tratava exatamente de desatenção. Na verdade sentia uma espécie de torpor, que não era apenas ressaca da noite em claro; um tipo de êxtase que o deixava meio leso, como se houvesse usado algum tipo de entorpecente. E embora não compreendesse como, sabia que aquela sensação de alguma maneira estava ligada à presença do objeto, pois aumentava quando o segurava em suas mãos.
            Precisava adaptar-se.
            – Não vou voltar atrás – disse para si mesmo.
            Aldo havia aceitado a missão por acreditar que iria estar ajudando a evitar um grande mal. Sentia que nunca tinha realizado nada tão importante quanto aquilo. Não iria desperdiçar a oportunidade que lhe estava sendo concedida.
            Sentou-se em frente ao computador, colocando o objeto sobre a escrivaninha, e começou a digitar o e-mail que precisava mandar para Jane.

* * *

            Pela manhã, pouco depois das 7h, Jane estava na mesa tomando café quando o alerta de mensagem do seu celular tocou.
            “ Abra seu e-mail. Escrevi algo pra você. “
            Por que Aldo não ligara em vez de mandar uma mensageme um e-mail? Jane esteve apreensiva a noite inteira e havia dormido muito mal. Em certo momento não se conteve e ligou, mas o celular de Aldo estava fora da área de cobertura. Esperava receber um telefonema seu pela manhã.
            Largando imediatamente a mesa, foi até seu computador e abriu o e-mail. Leu abismada a mensagem que não parecia fazer o menor sentido.
            Depois de reler o texto, desviou os olhos do monitor e ficou olhando para o vazio, sem acreditar.





Capítulo 3


         Carol trabalha como vendedora numa loja de variedades no centro da cidade. À noite faz um cursinho preparatório para o vestibular, se esforçando ao máximo porque acha que aos dezenove anos já é mais do que tempo de entrar para a faculdade, embora ainda tenha dúvidas quanto ao curso a escolher. Mora sozinha com a avó desde os oito anos. Sua mãe morreu jovem de um câncer de pulmão, quando Carol tinha apenas cinco anos. Seu pai, o filho único de dona Joana, chamado Bruno, voltou a morar com a mãe, em quem a menina já era viciada desde o nascimento e vice-versa. Dois anos depois ele se casou novamente, porém já não era possível separar avó e neta. Mudou-se para Belo Horizonte, onde o pai da nova esposa tinha uma pequena frota de transporte alternativo, e passou a trabalhar como motorista na firma do sogro. A mesada que podia enviar para a filha era pequena, mas o suficiente para dona Joana pagar uma babá durante toda a sua infância.
            Tendo ficado viúva aos sessenta anos, foi um consolo para dona Joana quando o filho se casou, acrescentando a esposa e a filha à sua família. A casa para a nora fora construída em seu próprio terreno, que era amplo o suficiente para duas casas aconchegantes, sobrando ainda um sombreado quintal cheio de mangueiras altas. E depois de tudo, receber a neta como filha adotiva, apesar de sua idade, não representou para ela nenhum fardo pesado; muito pelo contrário, isso encheu o seu coração de uma genuína felicidade.
            A menina cresceu, e agora retribuía a generosidade da avó sendo uma filha responsável e tomando conta dela com a mais dedicada afeição. Nos fins de semana, dispensava a empregada de fazer a comida, deixando ao seu cargo somente os outros trabalhos da casa, porque fazia questão de ela mesma cozinhar para a avó nesses dias.
            No trabalho Carol era sempre pontual. Naquele dia, porém, por causa do incidente com dona Joana no meio da noite, acordou tão sonolenta que quando o despertador do seu celular tocou elase confundiu e o desligou, em vez de apenas acionar a função soneca para tocar cinco minutos depois, como sempre fazia. Dormiu de novo e chegou mais de uma hora atrasada na loja.
            – Jane, mil desculpas. Vovó se sentiu mal de madrugada, fiquei preocupada com ela e acabei dormindo com o dia quase amanhecendo. Perdi totalmente a hora.
            – Ok, sem problema – respondeu quase indiferente Jane, contabilista da loja e filha do proprietário.
            Pela maneira como foi dada a resposta, Carol notou que a patroa não estava bem. Teve a intuição de que a noite mal dormida não tinha sido um privilégio seu. Jane era séria mas não irritadiça. No geral era uma pessoa descontraída. Sem afetação, mas descontraída. E se dava bem com todos os funcionários da loja, particularmente com Carol.
            – Se eu fosse novata aqui e não te conhecesse ia dar graças a Deus pela sua indiferença. Mas essa carinha é de quem não está legal.
            – Ta dando pra notar, é?
            – De longe. É coisa aí da administração?
            – Não. Nem me fale.
            – Então ta. Deixa eu ir cuidar no meu serviço. Se quiser conversar mais tarde.
            – Acho que vou querer mesmo. Estou precisando. Na hora do almoço a gente se fala.
            – Tudo bem.
            Quando chegava na loja pela manhã, Carol gostava de fazer uma rápida inspeção pelos diversos setores de mercadorias antes de se dispor a atender o primeiro cliente. Qualquer item mal disposto ou fora do lugar que ela conseguisse localizar era devidamente reorganizado. Só depois de realizar essa tarefa vinha oferecer sua forte concorrência aos colegas vendedores.
            – Fiz o seu trajeto hoje. E não é que comecei bem o dia? – disse Antonia, no momento em que Carol iniciava sua vistoria, surpresa por ver tudo milimetricamente no lugar.
            –Gente, estou fazendo escola! – respondeu Carol.
            – E aí, como é que foi o fim de semana?
            – E garota sem namorado lá tem fim de semana, mulher?
            – Sem namorado mas como uma lista de pretendentes! Eu bem que trocaria meus fins de semana por um ou dois desses seus fãs aí.
            – Sei não hein, se eu fosse você cobrava mais caro.
            – Como assim? Tipo o deus egípcio da patroinha?
            – Olha, olha. E é deus grego sua burrona.
            – Ah, que é que tem? E o Egito é muito mais interessante, eu sempre achei.
            Carol sorriu. Antonia era uma figura.
            – Mas, por falar nisso – continuou Antonia -, será que esse astral da Jane hojetem alguma coisa a ver como gostoso do Aldo?
            – Tudo é possível.
            Chegou um cliente e Carol foi atender.
            – Nossa! – disse ela, voltando para perto de Antonia. – Ofereci uma lanterna pro cliente que me pediu um estilete.
            Antonia soltou uma gargalhada.
            – Que noite, hem criança.
            – Antipática. Se você soubesse. Passei a noite foi vigiando aquela velha – sorriu. – Oh mamãe, tadinha da minha gatinha. Graças a Deus não foi nada sério.
            – Dona Joana? Que é que ela viu?
            – Pois é. É tão estranho. Você conhece alguém que alguma vez teve um sonho, e esse sonho foi se repetindo ao longo do tempo, sempre sendo interrompido no mesmo acontecimento?
            – Bom, tem uns caras com quem eu sonho sempre. Mas de cada vez é uma maravilha diferente. Mas o que isso tem a ver com a doença da sua avó? Ela tá doente, né?
            – Não. Deus me livre.
            – Ôxe, e que história de sonhos é essa? E se é você que anda tendo pesadelo, por que fica culpando a pobre da velhinha?
            – Não estou culpando ela de nada. E nem ando tendo pesadelos... Ah, é complicado. Melhor deixar pra lá.
            Muito raramente Carol perdia uma noite de sono. O fato de ter se equivocado ao entregar a lanterna para o cliente a deixou em alerta pelo resto do dia. Não queria ficar tendo tiltes por causa do sono.
            Na hora do almoço geralmente comia num restaurantezinho perto da loja, junto com Antonia e outros colegas. Mas Jane naquele dia queria conversar, e tinha que ser em particular.
            As duas foram a outro restaurante.
            Sentaram numa mesa a um canto, olharam o cardápio e fizeram seus pedidos.
            – Desculpa se pareci indiferente pela manhã. Você falou sobre dona Joana. Como ela está?
            – Está bem. Mas é engraçado, porque quando Antonia me perguntou isto acabei não conseguindo responder.
            – E por que não?
            – É que vovó não está doente. Jane, o que aconteceu essa noite não foi a primeira vez. E na verdade é uma coisa bem estranha. Simples, nada grave. Mas bem estranho.
            – Parece que fatos estranhos foram um sucesso essa noite.
            Carol lançou um olhar significativo.
            – Mas você me deixou curiosa – disse Jane. – Falou sobre ter ficado acordada até de madrugada, e agora diz que é uma coisa estranha e que já aconteceu antes. Se não é nenhuma doença, o que pode ser?
            – Um sonho.
            – Um sonho? – Jane fez uma expressão divertida.
            –É, eu sei – continuou Carol -, parece caduquice de velhote. Mas que tal se for um sonho que se repete há trinta anos?
            – Puxa!
            – Pois é. Um sonho que vovó teve pela primeira vez muito antes de eu nascer, e que sofre intervalos de anos, mas nunca deixa de se repetir.
            – Mas que tipo de sonho é? Imagino que seja algo assustador, já que ela fica mal quando acontece.
            Carol relutou em continuar. Sentiu que estava traindo a confiança de sua avó, expondo ela ao ridículo, e sendo indiscreta com Jane.
            – Olha só o que eu estou fazendo. Alugando você com os sonhos da minha avó, quando na verdade você tem coisas muito mais importantes pra falar. Faz assim, a gente deixa o mundo dos sonhos pra outra ocasião e conversa mesmo é sobre a vida real, que já é complicada o bastante.
            – Eu que o diga. Mas fiquei realmente curiosa por esse épico de dona Joana. Nunca ouvi falar de nada parecido. Queria saber os detalhes, mas acho que você está certa em não contar agora, porque talvez outra hora eu possa saborear melhor essa história.
             Jane fez uma pausa. Carol respeitou o silêncio, consciente de que ele era o meio necessário para que a amiga pudesse organizar e expor os seus pensamentos.
            – Também cheguei tarde na loja hoje – falou Jane depois de um momento - , muito pouco antes de você. Qualquer pessoa que tenha dormido por mais de trinta minutos essa noite dormiu mais do que eu. E de manhã, quando eu esperava que teria um alívio, recebo uma bomba.
            – Caramba. E o que foi que aconteceu?
            – Aldo foi embora.
            – Que é isso! Terminou com você?
            – Não exatamente. Mas me trocou por negócios, e precisa sumir por tempo indeterminado.
            Carol pensou um pouco, depois disse:
            – Jane, se o que houve foi uma viagem de negócios, mesmo que seja demorada, não vejo porque vocês brigarem.
            – Não brigamos. E pra falar a verdade acho que não houve viagem nenhuma. Acho que Aldo está em algum lugar aqui mesmo em Teresina, ou nos arredores da cidade.
            A amiga não podia compreender. Jane olhou para ela sabendo que era a pessoa certa com quem se abrir, e sem hesitar abriu sua bolsa, tirou um papel dobrado e o entregou a Carol.
            – Isto é um e-mail que recebi dele hoje cedo e imprimi. Vai ficar meio confusa ao ler, mas eu te explico tudo. A gente se viu ontem a noite, no shopping, ele saiu de lá contra a minha vontade, pra fazer uma coisa que eu gostaria muito de ter impedido. E hoje me enviou isto.
            Carol abriu o papel, viu as duas folhas impressas, lançou um olhar interrogativo para Jane e em seguida começou a ler.
            Um minuto depois o garçom se aproximou com a bandeja, serviu a mesa e saiu sem que Carol desviasse os olhos da leitura. Jane também não tocou na comida até que a outra terminasse.
            – Fala sério – desabafou Carol ao concluir.
            – E eu te garanto – disse Jane - , nem pra mim que conheço um pouco melhor a história isso é menos esquisito.
            – Bom, não sei se adianta te pedir pra dizer do que se trata, mas acho que é a única chance de entender pelo menos uma parte disso tudo.
            Jane abaixou os olhos ao mesmo tempo em que soltou um suspiro.
            – Vou te contar. Isto é... vou te contar o que eu sei, que como você vai ver não é o suficiente para esclarecer tudo. Mas preciso compartilhar isso com alguém de confiança, do contrário vou pirar com certeza. Não sei, você é inteligente, talvez me ajude a raciocinar. Vamos comer, talvez sirva pra descontrair um pouco a conversa.

* * *  

            Depois de almoçar e tomar a sagrada xícara de café, dona Joana recolheu-se para o seu quarto. Pegou seu álbum fotográfico e se pôs a folheá-lo devagar, demorando-se principalmente nas fotos de Augusto, seu falecido marido. Olhava orgulhosa nos olhos do esposo gravados no papel. “Cumpri minha promessa. Guardei o seu segredo como a coisa mais preciosa, e o levarei comigo.”
            Alguns minutos depois tinha o álbum fechado entre as mãos e seu pensamento vagava pelas imagens do sonho da noite anterior. Um sonho que de tão assíduo já constituía uma memória viva como a de um acontecimento real. E o que mais a impressionava era o fato de que jamais conseguira formular uma interpretação racional para os acontecimentos, sempre os mesmos.
            Mais uma vez naquele dia repassou mentalmente o sonho, como um filme. Pensou na maneira agitada como sempre acordava depois de sonhar, e em como isto atrapalhou o sono da neta essa noite, por deixá-la preocupada. Lembrou-se da expressão de pasmo no rosto de Carol quando lhe contou sobre o sonho pela primeira vez, há alguns anos atrás, descrevendo-o.
            –Entendi, vovó – disse Carol na ocasião. – É um sonho que se repete sempre, com as mesmas pessoas e os mesmos acontecimentos. Mas afinal de contas, o que a senhora vê, vovó?
            – Está bem. Vou contar a você.
            A velha suspirou, como que se encorajando.
            – Começa num cenário que lembra uma festa familiar. Um baile debutantes, talvez. Há uma jovem aparentemente muito feliz, a quem todos cumprimentam afetuosamente ao chegar. Ela caminha por entre as pessoas, conversa com um e com outro e se diverte. Num determinado momento ela sai para um pátio a céu aberto e espontaneamente lança um olhar embevecido para o luar, que está radiante aquela noite. Mas de repente algo acontece. Algo que a deixa ao mesmo tempo assustada e curiosa. No centro do astro de luz prateada surge a imagem de um rosto. É o rosto de um rapaz muito bonito, que aos poucos vai se virando para ela até que seu olhar cheio da mais envolvente ternura toca o dela, e uma forma inexplicável de amor invade todo o ser daquela jovem, levando-a a desejar acima de qualquer coisa do mundo ir para junto daquele rapaz e se unir a ele para sempre.
            “ Sem perceber, a moça entra numa espécie de transe e sai caminhando mecanicamente, causando a impressão de um maravilhoso enlevo em quem a vê. Abandona o local da festa e se move pelas ruas da cidade, conduzida por um estranho instinto de direção, como quem vagueia à toa mas sabe exatamente aonde precisa chegar. Por um pequeno instante fecha os olhos e tem a sensação de que seu corpo flutua. Ao abrir os olhos leva um susto, porque toda a paisagem urbana sumiu e ela se encontra sozinha, pisando descalça na areia da margem de um rio, cuja água reflete o luar. Sente medo por um instante, acordando do seu transe e sem entender como chegou até ali. Mas um ruído na água chama a sua atenção, e ao olhar para o lugar de onde vem o som vê o mesmo rapaz de rosto bonito emergindo inteiro do rio e caminhando em direção à margem. Porém ele só caminha até o ponto onde a água descobre os seus joelhos, parando aí  e encarando a moça com o mesmo olhar terno que ela tinha visto através da lua cheia.
            “ Uma irresistível atração é exercida sobre a moça, levando-a a se aproximar e entrar na água até ficar diante do rapaz, que imediatamente a envolve com carinho em seus braços, aplica-lhe um beijo e começa a se mover de volta para a água, carregando-a consigo. Num súbito flash de consciência ela pressente o perigo, interrompe o beijo e tenta se libertar. Mas ao abrir os olhos e tentar repelir o rapaz, percebe aterrorizada que a beleza que a havia seduzido desaparecera completamente, e no seu lugar o que existe  é uma aparência desfigurada e horrenda. Ela grita e se debate apavorada e em completo desespero, impotente contra aquela força inigualável que a arrasta para o fundo da água. E de repente, como o personagem de um filme que inexplicavelmente ganhasse consciência do expectador, a criatura monstruosa parece se sentir observada pelo meu sonho, e um segundo antes de imergir por completo com a moça, vira a sua face medonha para mim com uma expressão ameaçadora, que parece uma jura de vingança por eu ter-lhe espionado. A nitidez com que eu vejo os seus olhos furiosos me causa um terror tão verdadeiro e intenso que me faz acordar com os nervos tumultuados e sem ar.
            – Caramba, vovó! Isso é um conto gótico perfeito.



        
       

Capítulo 4


         O homem estava sentado no alpendre da casa, depois de ter caminhado aproximadamente uma hora por entre as árvores, plantações e canteiros da chácara. Pensava em muitas coisas. Pensava no significado de estar ali. Seu mestre devia estar chegando nos próximos minutos, para treiná-lo. Aprender tinha ganhado o sentido de um ato de fé. E a realidade dos heróis de romances e de filmes tinha se transformado na sua utopia: estava prestes a tornar-se um salvador.
            Sem abandonar seus pensamentos ele se levantou e foi para o interior da casa. A mobília era escassa, inexistindo objetos como aparelhos eletrônicos destinados ao puro entretenimento. Toda a arrumação da casa contribuía para uma atmosfera de permanente meditação, disciplina e rigor. Isto podia ser verificado na maneira como estava feita a distribuição dos objetos, a nítida relação entre a variação de suas cores e formas, tamanhos e materiais. Chegando no quarto, onde havia na parede um grande espelho em moldura oval antiga, parou diante do reflexo e contemplou a sua imagem.
            Quase duas semanas haviam se passado desde aquela noite no shopping e, embora o espelho não fosse perspicaz o suficiente para compreender, Aldo estava bem diferente. E, apesar deestar pagando o preço do isolamento, sentia que isso lhe inspirava uma certa reverência maior pela vida. Vivia um momento de abnegação, de abstinência da maioria das coisas prazerosas que a vida de classe média na cidade lhe proporcionava. Tinha consciência do seu sacrifício, e no fundo saboreava a vaidade do seu ato heróico, embora não nomeasse as coisas dessa maneira. E para sua surpresa, não achou que fosse um fardo tão pesado afastar-se temporariamente de uma vida em sociedade e mais confortável. Apenas um motivo impedia que ele esquecesse completamente quem era e se integrasse sem reservas à sua temporária reclusão – Jane.
            Arrependia-se do e-mail que lhe enviara no dia da sua fuga da cidade. Tinha sido uma tentativa de deixá-la despreocupada e certa de que seu sentimento por ela não havia sofrido nenhum prejuízo por causa do novo trabalho. Entretanto, agora via que suas palavras talvez tivessem agravado as suspeitas e preocupações da namorada. Chegou a pensar em arranjar um jeito de lhe enviar notícias, mas relutou e desistiu. Primeiro, porque não desejava ser o agenciador de nenhum contato entre a Irmandade ( à qual pertencia agora ) e Jane; segundo, porque tinha medo de só conseguir obter o mesmo efeito do e-mail que já lhe enviara.
            Na verdade, Aldo gostaria de nunca ter deixado chegar ao conhecimento de Jane o seu envolvimento com a Irmandade. E de fato isto só aconteceu por acidente, porque estavam juntos no dia em que ele foi contatado pela primeira vez. Pesquisavam num site sobre agências de viagens quando Aldo recebeu uma mensagem on-line. Alguém que se identificou apenas como Moctar abriu a janela de diálogo do MSN, deixou um recado e saiu. Os dois chegaram a rir, achando que fosse algum trote. Mas dois dias depois Aldo recebeu nova mensagem, e continuou a receber outras, sempre tratando do mesmo assunto e assinadas pelo tal Moctar. Como não acreditou no início ele foi contando para Jane sobre o “hacker” toda vez que recebia um novo recado. Quando veio a se convencer de que se tratava de algo sério, era tarde para deixá-la fora disso.
            A primeira mensagem que recebera, aquela que Jane presenciou, dizia:
            “ Caro amigo Aldo Lages. Pertenço a uma irmandade mística para a qual recentemente, por motivos que esperamos poder lhe revelar em breve, você se tornou alguém importante. Se as revelações ocorridas em nossos rituais forem exatas, como quase sempre são, você faz parte de um grupo de pessoas apontadas como os guardiões da peça-chave do segredo mais antigo da nossa irmandade. Eu me chamo Moctar, e voltarei a procurá-lo.”
            As mensagens que se seguiram a esta não diferiam muito em conteúdo. Na verdade era uma repetição do mesmo recado, redigido de cada vez com outras palavras, com o acréscimo apenas de um número telefônico seguido sempre da frase “Ligue-me para saber tudo”. Uma tarde, ao abrir o seu e-mail e ver mais uma vez que o insistente desconhecido havia feito contato, Aldo resolveu ligar para aquele número a fim de resolver o assunto, que já havia se tornado um aborrecimento.
            – Aldo Lages? – disse a voz do estranho, atendendo ao telefone.
            – O que? – surpreendeu-se Aldo. – Você tinha também o meu número?
            – Sim, eu tinha.
            – Então por que me mandou e-mails esse tempo todo em vez de me ligar de uma vez pra dizer o que queria? E como conseguiu o meu e-mail?
            – Certo, vamos às respostas. E lhe garanto que terá todas as que desejar, pois se me procurou é porque sua curiosidade foi aguçada  por dúvidas muito mais importantes do que estas que expõe sobre fatos tão banais, já que você sabe que estamos na era da comunicação e não existe nada mais simples do que conseguir acesso aos contatos de uma pessoa.
            Houve um curto silêncio. Depois Aldo perguntou:
            – Essas coisas que você tem me dito nas suas mensagens, o que significam? Que história é essa de irmandade mística? E o que você quer comigo?
            – Suas perguntas são simples e honestas, é justo respondê-las. E a primeira coisa que devo lhe dizer é que não sou eu quem quer ou deixa de querer as coisas. A irmandade tem a sua hierarquia, e dentro dela tenho uma função importante, mas não sou quem toma as decisões. Tenho habilidades na área de investigação, por isso fui incumbido de localizar você e contatá-lo.
            – E o que eu tenho de especial para que mandassem você me procurar? Se estamos falando de uma seita religiosa, eu nada poderia oferecer. Acredito em Deus mas sou um homem sem religião. E não sei nada sobre esoterismos.
            – O conhecimento de que necessita lhe será fornecido por nós. A fé será uma conseqüência da sua generosidade.
            – Generosidade?
            – Amigo Aldo, você foi apontado como um daqueles que pode ser o realizador de um grande feito, mas ainda que a profecia se revele em você, somente a aceitação voluntária do seu dever poderá levá-lo a ter êxito. E esta aceitação dependerá do grau de generosidade contido em seu coração. Agora ouça bem. O seu telefonema hoje é o sinal que nós esperávamos. É natural que esteja cheio de dúvidas até mesmo quanto à veracidade do que estou lhe dizendo. Mas acredite, desejamos esclarecer-lhe tudo. É do nosso mais alto interesse que você compreenda com clareza a situação. E para isto é necessário mais do que alguns minutos de uma conversa telefônica. Precisamos conversar pessoalmente. Diga, poderia me encontrar num local discreto às 4 da tarde, amanhã?
            – Amanhã? Olha...
            – No Parque da Cidade, zona norte. Estarei lá 15 minutos antes. Caso você não apareça até às 4:10 irei embora. Espero vê-lo. Até logo.
            – Espere... Alô? 
            Moctar havia desligado.
            Às 16h em ponto do dia seguinte Aldo cruzava o portão de entrada do Parque da Cidade. Era sábado, a criançada no playground enchia o ar com o som estridente de sua farra. Casais caminhavam pelas trilhas do pequeno bosque e o bar estava lotado. “Um local discreto” – pensou Aldo, desconfiado de que a “habilidade” de Moctar para escolher os lugares dos seus encontros misteriosos talvez não fosse tão apurada quanto a de localizar pessoas para a sua seita.
            Depois de ter dado uma volta pelo parque inteiro sem encontrar quem procurava, consultou o relógio e viu que eram 16:15. Sabia que tinha chegado na hora certa, o homem não poderia já ter vindo e ido embora por impaciência ou cansaço. Além disso prometera chagar 15 minutos antes, portanto já deveria estar ali quando Aldo chegou. Se nenhuma coisa nem outra tinha acontecido é porque realmente se tratava de uma brincadeira sem graça. Isso frustrava um certo senso de aventura despertado em Aldo por essa história toda. Mas o que importava era a verdade.
            Tomou o caminho de volta para a saída do parque. Vinha mergulhado em pensamentos, por isso assustou-se quando sintonizou o olhar e viu que um homem desconhecido o encarava de braços cruzados, tranquilamente encostado no seu carro.
            – Não está tão sossegado hoje, não é? – disse-lhe o homem com simpatia quando ele se aproximou.
            Aldo não precisou perguntar quem era. No entanto, estava surpreso pelo erro de suas expectativas quanto ao aspecto do homem, o qual, ao contrário do visual quadrado e do semblante sombrio que Aldo imaginava, tinha feições joviais e agradáveis – a despeito dos seus 52 anos, que só mais tarde Aldo ficaria sabendo que ele tinha –e vestia bermuda jeans, tênis e camiseta cavada.
            – Antes de mais nada quero que saiba que eu não me atrasei – continuou Moctar. – Cheguei aqui na hora marcada, mas como ainda estava muito movimentado fui para aquela lanchonete do outro lado da avenida. Vi quando você chegou e acompanhei o seu deslocamento pelo parque daqui de fora. Mas não pense que estava me divertindo com você. Eu quis apenas observar de que maneira você iria procurar por alguém que nunca tinha visto e de quem não possuía nem mesmo uma simples descrição.
            – No seu lugar eu teria me divertido muito com isso.
            – Bom... Sim, não nego. Desculpe-me.
            E depois de um pequeno silêncio entre os dois:
            – Mas vamos entrar no parque novamente, se isto não for um incômodo para você. Tenho muito a lhe dizer.
            Aldo assentiu em silêncio, acompanhando Moctar.
            Atravessaram toda a área do parque. Desceram até a horta, onde Aldo observou que um homem e uma mulher que cuidavam do seu canteiro fizeram sutilmente uma reverência para Moctar ao vê-lo e apontaram com um gesto de cabeça para uma cancela de madeira na extremidade do cercado. Cruzaram a cancela e seguiram a trilha estreita que conduzia até uma ribanceira na margem do Poty. Fizeram a descida íngreme apoiando-se nos galhos e raízes expostas e pisando nos torrões de barro úmido e nas pedras, até atingirem a areia do rio, onde parecia ser um pequeno ponto de banho ou de pesca, porém deserto àquela hora, com um tronco de árvore formando um assento perfeito, caído sobre a areia.
            – O tempo que nos resta até o pôr-do-sol é mais do que o suficiente – disse Moctar, já sentado sobre o tronco, apontando para o horizonte.
            Convencido de que tudo aquilo não podia ser um trote e tinha algum sentido real, Aldo se mostrava agora mais paciente, e conservou ainda o silêncio para não levar aquele homem a perder o foco de qualquer coisa que tivesse preparado para dizer-lhe.
            – Só tem uma coisa que provavelmente irá desagradá-lo – disse Moctar. – O que tenho a lhe revelar só pode ser feito gradativamente. Um grande segredo da irmandade está em jogo, o mais antigo como já lhe disse. Não podemos arriscar confiá-lo inteiro a você antes de sabermos como lidará com as partes que lhe forem sendo reveladas.
            Fez uma pausa, talvez para dar a Aldo uma chance de se manifestar. Como nada aconteceu, continuou:
            – Olhe para estas águas – apontou para o Poty. – Tão sossegadas, não é? Uma inspiração para qualquer poeta de sensibilidade lírica. E em breve, em pouquíssimo tempo, estarão completamente purificadas da sua maior mácula.
            – Isto é um enigma? – interrompeu Aldo.
            – Não. Mas por enquanto alguns fatos ainda terão este caráter enigmático para você. Mas não se preocupe, você não vai ficar na ignorância por muito tempo. Sinto que seu coração é ávido por emoções como as que terá que viver; isto mesmo irá levá-lo a progredir rapidamente em sua missão.
            Ele sabia que tinha lançado a isca, a provocação estava feita. Porém, mais uma vez Aldo não disse nada, e ele entendeu o seu jogo. Jogo que o favorecia, pois o rapaz estava claramente disposto a ouvi-lo, sem interrupções e sem perda de tempo para ambos. Moctar por sua vez também se decidiu. Seria direto, incisivo.
            – Existe um objeto sagrado. Sua função é impedir que um determinado ser, aprisionado por uma maldição, se liberte e utilize um poder desconhecido para submeter pessoas com perversidade. Somente um homem é capaz de manusear o objeto. Nosso mestre possui o dom da visão, e numa dessas visões você foi apontado como o escolhido. Um novo ritual precisa ser realizado com a sua presença. O poder contido no objeto sagrado revelará se você é mesmo aquele que foi eleito para ser seu guardião e utilizá-lo na hora certa.
            O silêncio de Aldo dessa vez não foi por estratégia, mas de pasmo. No entanto, antes que tivesse tempo de formular qualquer questão, coisa que agora faria com certeza, Moctar concluiu friamente:
            – Isto é tudo que ficará sabendo hoje. Você será informado quanto ao dia do seu encontro com o mestre. Seu comparecimento é de suma importância; mas é livre para decidir.
            Moctar fez uma pausa, como se dizer aquilo o constrangesse.
            – E há uma recomendação que não posso deixar de lhe fazer. Não comente sobre o nosso encontro com ninguém. Sei que tem uma namorada, de quem aparentemente você gosta muito. É provável que até aqui tenha contado tudo sobre este caso para ela. Mas de agora em diante, se o seu coração pedir que abrace a nossa causa, você deverá manter sigilo total acerca da sua relação conosco. Mesmo ela, que sem dúvida compartilha de toda sua intimidade, não poderá em hipótese alguma ter acesso às informações concedidas a você, começando pelas coisas que acabo de lhe dizer. Se menosprezar esta regra fundamental da nossa fraternidade, será considerado indigno do chamado que recebeu.
            Agora, diante do espelho oval no quarto da casa da chácara, Aldo finalmente podia entender com clareza as palavras e a atitude de Moctar, e o admirava pela sua dedicação e lealdade á causa que agora também era sua.
            O fluxo dos seus pensamentos foi interrompido pelo ruído do automóvel que acabava de estacionar em frente à casa. Seu mestre tinha acabado de chegar.





Capítulo 5



          – Não é este – disse Carol para o camelô de DVDs.
             – Mas este aqui também é muito bom – insistiu o rapaz, com o filme pirateado na mão. –É um dos mais vendidos.
             – Ta, mas o que eu estou procurando se chama Orgulho e Preconceito, já disse.
             – Eu sei qual é; já assisti ele. E é por isso que eu te digo: este aqui é igualzinho. Se não for até melhor. Até os atores são mais conhecidos, quer ver olha aí.
             – Leva esse aí mesmo Carol. DVD pirata é como genérico de remédio, faz o mesmo efeito do original.
             – Obrigada Antonia; seu comentário mudou a minha vida pra sempre.
             – Ah, você não quer assistir um filme de amor? Esse aí que o rapaz está mostrando é bonitinho.
             – Orgulho e Preconceito não é só um filme bonitinho. É a adaptação de uma obra prima da literatura. Se tiver pelo menos a metade da qualidade do livro é um filme perfeito. Quando eu encontrar vou te fazer assistir e você vai ver como eu tenho razão.
             – Então ta. Vamos procurar nos outros boxes.
            As duas voltavam do almoço e, no caminho de volta para a loja, Carol tinha se lembrado de procurar pelo filme no shopping dos camelôs. Ela havia sido presenteada,por um professor seu, com o romance de Jane Austen quando completou catorze anos; a leitura do livro marcara profundamente o seu senso estético. E agora tinha descoberto, não sem uma certa revolta,  que o filme já existia há algum tempo. Como já é um fato cultural que a videoteca do proletário brasileiro seja pirata, Carol foi para as bancas sem nenhum constrangimento.
            Foram parando num boxe e noutro, pesquisando insistentemente. Como não estavam conseguindo encontrar, Carol decidiu deixar para depois, e tomaram o rumo da loja. Passavam pela praça Rio Branco quando, de súbito, perto dali ouviu-se um baque e um aglomerado de curiosos se formou rapidamente na beira da pista.
             – Vem, vamos ver – disse Antonia puxando o braço de Carol.
             – Não, não quero – replicou a outra. – Não gosto de ver gente ferida.
            Antonia avançou, ma antes de conseguir se juntar à multidão percebeu que as pessoas recuavam assustadas. Carol notou aquele movimento e se adiantou alguns passos. A multidão afastou-se, abrindo caminho para o homem que acabava de se levantar do asfalto quente, depois de ser arremessado no ar pelo impacto da Blazer que o atropelara.
            Era um rapaz alto e de constituição física robusta, sem ser musculoso. Seus cabelos escuros e cacheados eram longos, caindo até abaixo da linha dos ombros. Permeando a barreira humana formada à sua frente, ele se dirigiu para o centro da praça, impressionando a todos que haviam presenciado o ocorrido pela firmeza com que pisava no chão, caminhando. Passou bem perto de Carol, que por um instante o tinha visto caminhar em sua direção e também abriu caminho para deixá-lo passar. Seus olhares se cruzaram por um segundo, no qual ambos pareceram experimentar um estranho incômodo –misturado a um estranho prazer.
            Subitamente o passo firme foi abalado, e o rapaz cambaleou. Carol estremeceu e, sem a consciência exata do que estava fazendo, se lançou alguns passos com incrível rapidez, agarrando o rapaz no momento exato em que ele desabou. Num segundo Antonia apareceu e ajudou a amiga a colocar o estranho sobre um banco da praça. Outra pequena multidão acorreu, formando um círculo em volta do banco. O jovem estava visivelmente abatido, mas consciente,e não havia nenhuma marca de ferimento no seu corpo. Sua camisa tinha se rasgado no atropelamento, provavelmente durante o atrito com o asfalto;porém os trechos visíveis da pele através dos rasgões da camisa, no meio das costas e sobre o ombro direito, não mostravam o menor indício de lesão.
             –Deve ter sofrido alguma fratura, algum ferimento interno – disse alguém.
             – Pode ser que esteja com uma hemorragia interna – disse outro. 
             – Ele precisa ir para um hospital.
            Carol e Antonia haviam-no sentado no banco, pois ele não cedera à sua tentativa de deitá-lo. Mantinha a cabeça baixa e evitava particularmente os olhos de Carol, que havia se agachado bem à sua frente. Ele parecia muito assustado. Algo como um pedido de ajuda emanava dele para a percepção de Carol. No entanto, por mais que as pessoas lhe dirigissem mil perguntas sobre alguma dor, sobre um número de telefone ou nome de um parente a quem avisar, ele se mantinha em silêncio.
            Depois de alguns minutos as pessoas começaram a cogitar sobre ele ser apenas um mendigo e quase com certeza retardado mental.
            A Blazer que o atropelara havia desaparecido sem que ninguém tomasse nota da placa e nenhum guarda de trânsito a houvesse detido. De repente o som de uma sirene fez com que todos se voltassem, alguém havia chamado o pronto-socorro. O rapaz ergueu a cabeça, viu a ambulância; e quando um paramédico e um enfermeiro desceram com uma maca, ele se ergueu abruptamente, deu um salto por cima de Carol antes que ela tivesse tempo de ficar em pé, e disparou no meio da multidão como um animal selvagem fugindo do seu predador, desaparecendo na agitação da selva urbana.
            Pelo resto daquele dia e nos dias seguintes Carol não conseguiu pensar em outra coisa. Ela e Antonia tinham ouvido as pessoas contarem como viram aquele homem entrar distraidamente na frente do carro, sem dar tempo ao motorista de frear; e como a batida parecia tê-lo quebrado todo, pela força da pancada; e a maneira inacreditável como ele se ergueu sem nenhum arranhão e saiu caminhando. Entretanto, se o que mais impressionava aos outros era o fato de o homem ter saído aparentemente ileso do acidente, os motivos de Carol eram outros.
             – Você viu os olhos dele? – perguntou para Antonia.
             – Uma tentação, não era amiga?  
             – Não, não é sobre isso. Perguntei se você viu dentro dos olhos dele.
             – Eu não, ele estava tão amuado que não ergueu a cabeça um segundo. Os olhos não. Mas vi o resto todo, e te digo mesmo: era de fazer gosto. 
             – Quando ele passou por mim, olhou direto nos meus olhos, e eu... por um momento eu tive a impressão... foi tão estranho... eu tive a impressão...
             – Você ficou foi caidinha pelo esquisitão, sua boba. 
             – Para com isso.
             – Que gato!  
             – Isso que você falou, sobre ele não ter erguido a cabeça, ter mantido o olhar baixo... É estranho... Eu senti que isso teve a ver comigo. Sei que não faz sentido, mas te juro, eu senti que teve alguma coisa a ver comigo.
             – Convencida! Mas vem cá, garota, falando sério:o que está acontecendo com você? Tenho te achado muito misteriosa ultimamente. Parece que tudo ganha uma importância enorme pra você. Neste caso não, eu também fiquei super impressionada com aquele cara estranho. Mas às vezes você dá atenção demais pra coisas tão pequenas que eu não entendo como você se interessa por elas. E quando você e Jane conversam, parece que estão tramando uma conspiração. Eu sei muito bem que ela tem enchido a sua cabeça com alguma coisa; é outra que anda cheia de mistério desde que terminou com o namorado. Já esse evaporou, deu uma sumida federal.  
             – Bom, eu só posso falar por mim. Mas talvez você tenha razão, pode ser que eu esteja numa fase em que as coisas me impressionam com mais facilidade. E agora vamos voltar pra loja, já estouramos a hora do almoço. Depois a gente procura aquele filme. Que dia, hem?

* * *

            O velho sentado na cadeira de rodas abriu os olhos. A sua frente, quatro homens formavam um semicírculo, sentados no chão com as pernas cruzadas em lótus. O ar da sala fechada tinha um suave aroma campestre, com um incensório em forma de dardo pendendo no meio do teto da casa da chácara. Os quatro homens também abriram os olhos e contemplaram o velho, o qual após algum silêncio declarou:
             – Está feito. Ele já se encontra entre nós. Seu instinto alcançou o mais alto nível de refinamento, o que poderá levá-lo a concluir sua procura em tempo recorde. De agora em diante os Guardiões não podem se descuidar; caso contrário falharão. Seu tempo é restrito, mas desconfio que ele não tenha consciência exata disto. É possível que tenha sofrido danos em sua memória durante o processo de mutação, um fato imprevisto pelo qual devemos agradecer, pois nos brinda com um pouco mais de tempo para agirmos antes que ele utilize os recursos sobre-humanos que possui. Sabem o que fazer. Que cada um seja zeloso em suas funções e eficaz no papel que lhe cabe neste grande ato de libertação. E que sejamos abençoados em nossa demanda.


Não perca, em breve, o livro completo em 35 envolventes capítulos que você vai querer ler até o fim.

Valor previsto: R$ 35,00(Despesa postal já incluída)

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