segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Escrita e a Saga: impressões sobre “A Fortaleza de Crispim”, de Eduardo Prazeres






Pedro Pio Fontineles Filho
Prof. Dr. do Curso de História da UESPI/CCM


            Certa feita, em mais um momento de plena lucidez, Clarice Lispector afirmou: “Eu escrevo para nada e para ninguém. Se alguém me ler, será por conta própria e autorrisco. Eu não faço literatura: eu apenas vivo ao correr do tempo. O resultado fatal de eu viver é o ato de escrever”. Por muito tempo, essa assertiva da autora parecia não fazer muito sentido, visto que toda escrita é sempre social e culturalmente localizada, alémde endereçada. No entanto, a percepção da amplitude daquilo que pretendia dizer a escritora, se fez quando da leitura do novo livro de Eduardo Prazeres, A Fortaleza de Crispim, publicado em janeiro de 2017, pela editora Nova Aliança e por meio do Sistema de Incentivo Estadual à Cultura – SIEC.
            Após o inegável sucesso de Crispim e a sétima virgem, Eduardo Prazeres inaugura o ano com o segundo livro da saga a Lenda de Crispim. Esse livro, assim como todos os outros já publicados pelo autor, é um reflexo da própria saga de um escritor que tem tomado e tornado a escrita sua filosofia de vida, ou melhor, a sua vida. Nesse sentido, aquilo que Clarice Lispector havia dito, afirmando que ela não escrevia para ninguém, também pode ser aplicado a Eduardo Prazeres, pois ambos têm o ato de escrever com o “resultado fatal” de viverem. Esse viver está na vivência da literatura que produzem. Eduardo Prazeres vive visceralmente aquilo que escreve.
            Em seu novo livro, o literato está mais à vontade, mais seguro, mais ousado e mais complexo, sem perder as suas características que fizeram dele um grande representante do que se poderia chamar de nova geração de romancistas no Piauí. A sua projeção para além dos limites do estado também faz parte de sua saga, de sua construção como escritor. E, nessa construção, talvez um dos pontos mais louváveis de sua trajetória, ou melhor, de sua saga, é a sua permanente humildade, pois não deixa, nos pré e pós-textuais do livro, de agradecer e homenagear seus leitores, seus familiares, seus amigos (inclusive alguns citados na própria narrativa, como se observa no capítulo 11, tornando-se “personagens”, especialmente no teatro...lugar do qual o escritor não se desvincula, e nem deve!) e os incentivadores e financiadores em geral da sua escrita.
            Assim como em Crispim e a sétima virgem, esse novo livro se apresenta como uma fonte quase inesgotável para professores e pesquisadores de diferentes áreas, além da Literatura, visto que transita pela História, pela Filosofia, pela Sociologia, pela Geografia.No tocante à Linguagem, o autor busca dar identidade e personalidade a seus personagens, mesclando traços da narrativa escrita e da narrativa oral, apresentando palavras e expressões tanto coloquiais quanto eruditas, bem como gírias e regionalismos. Isso se torna uma excelente oportunidade para que os professores de Língua Portuguesa possam implementar ricas análises. A intertextualidade também é algo marcante na obra de Eduardo Prazeres, repetindo-se em A Fortaleza de Crispim. Referências à Literatura estrangeira e nacional, assim como ao cinema, encaixam-se de forma sutil na narrativa.
            No livro, o leitor vai encontrar uma exímia pesquisa, feita pelo escritor, acerca de outras culturas e práticas (entre o oriental e o ocidental), que se misturam com a cultura local e regional. E é nesse trabalho de “romper” limites e fronteiras que Eduardo Prazeres deixa transparecer suas convicções acerca da vida, da amizade, do amor e do fazer literário. O leitor mais atento notará o seu aprofundamento filosófico, antropológico e social (sobre as noções de realidade, de indivíduo, de tempo, de criminalidade, violência, política, e de religiosidade e fé); os seus conhecimentos sobre a História do Piauí (como a escravidão e as lutas pela independência do país); seu conhecimento da geografia e do espaço urbano (principalmente dos rios, das ruas, avenidas e prédios da capital); suas concepções sobre relações humanas, étnicas, sociais, de gênero, de respeito e tolerância. São inúmeras as possibilidades de abordagem de seu livro.

Quanto ao autorrisco de quem ler, como salientou Clarice Lispector, o leitor deve se aventurar nesse risco, pois, de fato, A Fortaleza de Crispim é um texto envolvente, dinâmico e provocante. Não somente pelo enredo e pela narrativa, mas pelas múltiplas facetas de leituras e interpretações, que dele brotam. Caros leitores, arrisquem-se nessa saga, “preparem-se para todas as emoções inesperadas. Porque é isso que encontram aqueles que se aventuram na Fortaleza de Crispim” (p. 310).

Um comentário:

Unknown disse...

Como faço para comprar seus livros? Estou precisando principalmente do livro "Crispim e a sétima virgem". Desde já agradeço se puder me dar um retorno no e-mail daiannedms@gmail.com.