sábado, 19 de outubro de 2013

Por amor à escrita e à leitura: Crispim revisitado


FONTE: Jornal O DIA, folha Opinião, pág. 6, de 18/10/2013

Por: Pedro Pio Fontineles Filho – Doutorando em História Social (UFC)/Professor de História (UESPI)


            No mês de outubro, no qual é celebrado o dia das crianças, o dia do professor e o dia do Piauí, dentre outras comemorações, a indicação de livros parece ser uma ação que cria um forte elo entre os professores e as crianças, e, por consequência, entre eles e toda a sociedade, visto que um povo que lê é um povo capaz de se compreender e de se (re) inventar. Por tal razão, a sugestão do recém-publicado“Crispim e a Sétima Virgem” (2013), de autoria de Eduardo Prazeres Fonseca, é uma boa pedida para contemplar essas três datas comemorativas.
            Eduardo Prazeres, como é conhecido, tem demonstrado grande interesse pelo ato de escrever. É autor de outros dois livros: “Reflexos do Nada” (2002), livro de poesias; e “Balada Suburbana” (2010), livro de contos que traz uma das marcas de sua escrita, a jovialidade da linguagem. Isso significa que, em meio à busca da escrita minimamente formal, o autor não se furta da possibilidade de tornar seus escritos mais suaves, de fácil leitura e entendimento. Mais que isso, uma leitura sedutora, que alcança um público variado. Vale lembrar que Eduardo Prazeres traz para seus textos aspectos de sua personalidade, de sua pluralidade e de sua versatilidade. Além de ser um poeta, contista e, agora, um promissor romancista, ele, desde muito tempo, tem se dedicado, ora com mais, ora com menos intensidade, aos ambientes da atuação artística e teatral. Integrou o Núcleo de Criação do Teatro João Paulo II, onde atuava como ator e como ministrante de oficinas de teatro, especialmente para os jovens da região do Grande Dirceu, atividade que ainda desenvolve. Escreve textos para o teatro, como aquele que compõe a peça de grande sucesso, “Quem não surta vez em quando!?”, interpretada pelo grupo Prelúdio. É importante observar isso, pois sua escrita é rica em teatralidade e movimento. Seus textos, em grande medida, parecem ser pensados, mesmo que de maneira inconsciente (talvez mesmo até consciente), para os palcos do teatro.
            Em seu livro de estreia no romance, “Crispim e a Sétima Virgem”, Eduardo Prazeres traz à tona do fazer literário uma versão moderna e dinâmica de uma das lendas mais emblemáticas da cidade de Teresina e, em grande escala, do Piauí. A escrita poética, que deu a Eduardo Prazeres o fôlego para seu primeiro livro, está presente nesse romance, mesmo que não seja no sentido estrito do termo poético, mas sim, no que se refere à sensibilidade descritiva de sua narrativa. A escolha da lenda é explicada pelo próprio autor: “Gosto de temas fantásticos porque eles são a ferramenta para expandir a imaginação, para transcender o corriqueiro e (ainda que metaforicamente) a condição de mortal”. E é nessa expansão da imaginação que o público deve se envolver na leitura desse romance.
            O livro está repleto de elementos que povoam a imaginação, o que não poderia ser diferente ao se tratar de um texto que parte de uma lenda, entrecortado por aventura e mistério. Os capítulos são relativamente curtos, o que demonstra a sua ligação com a escrita rápida dos contos, como a feita em seu segundo livro.Para as crianças, adolescentes, jovens e adultos, o livro é a oportunidade de (re) lembrar-se da lenda de Crispim e é a possibilidade de lançar outros voos imaginativos, conduzidos pelo escritor. Apenas conduzidos e não aprisionados, pois, a partir daquilo que sugere o texto de Eduardo Prazeres, o leitor pode criar novas estórias. É isso, inclusive, uma das funções, se é que se pode falar de “função”, das artes e da literatura: despertar para a imaginação e para o sentir. Para os professores, sobretudo aqueles voltados para o ensino da Linguagem e da Literatura, é a possiblidade de levar, para seus alunos, temáticas tais como a influência da fala na escrita, vícios de linguagem, coloquialismos, contrações, que estão presentes ao longo de todo o texto. Além disso, analisar tipos literários, personagens e, em primeiro plano, pensar a importância das lendas na construção de identidades e de valores, a partir do incentivo do gosto pela leitura.
            Nossa história e nossa cultura são riquíssimas e o são pelos inúmeros sujeitos que as constroem constantemente, aos quais se junta Eduardo Prazeres. No campo da escrita literária, há vários valores potenciais, que ainda não são conhecidos pelo público ou que são excluídos pelo próprio campo literário, como bem salientou Pierre Bourdieu. É nesse campo que são criados critérios, por vezes velados e imperceptíveis, na disputa de poder. Ser considerado um “literato” está inerente ao jogo das relações de manutenção de tal poder, como é o caso dos cânones literários. Inscrever-se nesse campo é estar preparado para os discursos de aceitação e de negação, pois isso faz parte das “regras da arte”. Nesse sentido, tinha razão Rubem Alves ao dizer que “o escritor tem amor, mas não tem poder”. Eduardo Prazeres se aventura nesse campo, sem a preocupação primeira de ser bem ou mal “recepcionado” pelos críticos, mas com o intuito mesmo de socializar aquilo que lhe faz perder-se no tempo, escrevendo e reescrevendo.Ele escreve, como poucos, por amor à escrita. Seu livro é um excelente presente, não só para professores e crianças, mas para qualquer pessoa. Resta dizer: aventure-se no universo de “Crispim e a Sétima Virgem”!


NOTA: (de Eduardo Prazeres)
Se meu trabalho frutificar e prosperar (causa à qual estou dedicando a minha vida), e um dia eu vier a ser um escritor agraciado com uma fortuna crítica, o texto de Pedro Pio será lembrado como o primogênito desta família ensaística que porventura venha a existir; e desde já, independente de haver ou não outras manifestações, é um texto que tem todo o meu apreço, pelo grande gesto de atenção justamente no momento em que ainda sou um escritor principiante. Meu muito obrigado, caro amigo!

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