quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Prólogo do meu novo livro SÁRDIRUS - A TERRA LENDÁRIA DO AGRESTE




PRÓLOGO


Depois de dirigir os 84 quilômetros de Teresina a Campo Maior, Leônidas tomou o rumo da antiga estrada de ferro, agora desativada, e estacionou de propósito sobre os trilhos, como faziam em outros tempos aqueles que queriam desafiar o trem.

Fazia uma noite chuvosa do mês de Janeiro, quando a terra no Piauí se renova em todos os seus aspectos e, por um momento, parece que as mudanças climáticas transportam a tudo e a todos para um outro lugar, onde o sol, o calor e a seca não exercem o seu poder com tanta veemencia, e pode-se contemplar a vida no exuberante verde renascido da vegetação e senti-la mais prazerosamente no frescor da tarde ou nas bem-vindas noites frias.

Durante os flashes de luz produzidos pelos relâmpagos, Leônidas contempla através do pára-brisa do seu carro a Serra de Santo Antonio, que aparece e desaparece, e recorda-se dos acontecimentos ocorridos há tantos anos e mantidos em segredo até ali. A emoção o domina. E, apesar da chuva forte, ele abre a porta do carro e sai, entregando-se àquele devaneio de ficar ali, olhando a serra ao longe, sozinho no meio da noite de inverno.

Enquanto a água penetra seus cabelos e o tecido da sua roupa, encharcando seu corpo inteiro, sua alma viaja no tempo, aventura-se no passado e retorna ao presente na mesma velocidade em que a chuva cai sobre a cena solitária.

Os faróis do carro estão acesos e os vidros das portas fechados, por isso seu interior não pode ser alcançado pela visão de Leônidas. Ele sorri, apenas imaginando o envelope sobre o painel. Um envelope volumoso, contendo os originais do seu novo livro, recém-finalizado. Em outro envelope mais fino, as folhas de uma cópia do novo contrato com uma das maiores editoras do país, a qual já publicou os livros anteriores de Leônidas e vem ajudando-o a ter renome nacional.

Ele abre os braços para a tempestade, fecha os olhos e mentaliza as primeiras palavras de seu livro:

Por trás de cada par de olhos um segredo, um mundo e seus enigmas; dentro de cada par de olhos, um labirinto de saberes e sensações, um universo de coisas que, por mais que se revelem, jamais poderão ser plenamente compartilhadas.”

O segredo escondido por trás dos olhos – dentro dos olhos – de Leônidas finalmente seria revelado ao mundo. Porém, de maneira tão estratégica que, mesmo compartilhado, continuaria a ser um segredo.

Abrindo os olhos, por um segundo a claridade dos faróis parece excessiva, pois as pupilas estão dilatadas e ele consegue enxergar a silhueta das árvores mais distantes. Um novo raio produz seu fugaz amanhecer no horizonte, rasgando as trevas, descortinando por um curtíssimo instante a imagem longínqua da Serra de Santo Antonio. Embevecido, antes que aquela imagem desapareça num piscar de olhos, Leônidas exclama:

– Sárdirus!      
            
E como se, por algum motivo, quisesse enfatizar para si mesmo o som daquela estranha palavra ou canalizar sua energia, ele enche os pulmões até o limite e repete, num grito cheio de êxtase:

– Sáaaaaaaardirus!

O som arrastado e suave de um trovão ao longe ressoa no ar, como uma voz poderosa e amigável que respondesse de um outro mundo, invisível e misterioso. Leônidas sorri.

 – Olhos aos que não veem! – diz Leônidas, com ar de quem relembra palavras ditas em um passado remoto ou algum momento sublime. “Olhos aos que não veem!”

E mais uma vez ele se volta para o interior do carro, apurando a vista na direção dos dois envelopes sobre o painel.

Seu livro. Seu contrato editorial. Sua história contada na forma de uma narrativa de ficção, cujo conteúdo provavelmente apenas uma pessoa na face da terra, além de Leônidas, saberia que nada tinha de ficção e era a mais absoluta verdade: seu primo Alberto.

Vinte anos separavam aquela noite chuvosa dos acontecimentos relatados no livro de Leônidas em forma de ficção. Acontecimentos, na verdade, vividos por ele e seu primo Alberto. Vinte anos de um segredo que agora seria conhecido por milhares, talvez milhões de pessoas, e continuaria a ser um segredo.


Os olhos de Leônidas, meio embaçados pela água da chuva, se esquecem da tempestade e da escuridão à sua volta, para visualizarem as primeiras cenas daquele fim de tarde já distante no tempo, mas ainda tão vivo em sua memória, quando ele e seus pais desembarcaram no pequeno terminal rodoviário de Campo Maior, em viagem de férias.


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