terça-feira, 8 de novembro de 2011

DIÁRIO DE UM ESCRITOR ERRANTE - post 4

Conclusão de Caxias

NOTA: Esta parte do relato de Caxias será apenas um resumo; o motivo disto é que já se passou um mês e meio desde os acontecimentos do meu último dia naquela cidade, e uma tentativa de recuperar o frescor da narrativa não seria muito eficaz.


(16/09/2011 – sexta-feira)

Em suma, meu segundo e último dia de trabalho em Caxias foi um sucesso. O dia anterior, em que muitas coisas deram erradas, funcionou como um tipo de aquecimento. Fazia muito tempo que eu não saía por aí vendendo uma publicação minha; a última vez havia sido em 2005, quando publiquei o folheto Poesia & Atitude. Era natural que o vendedor Eduardo estivesse bastante enferrujado.

Mas nesse segundo dia em Caxias comecei a experimentar a sensação de vitória que passaria a fazer parte do meu cotidiano nas diversas cidades que eu visitaria depois dali. Acordei cedo, fui trabalhar no campo selecionado no dia anterior e fiz uma excelente venda. Como sempre, muitas situações inusitadas e momentos interessantes de se relatar; uns desagradáveis, outros super gratificantes.

Um dos momentos mais marcantes foi a venda de um exemplar numa funerária. Eu passava pela calçada no outro lado da rua, quando, ao olhar para a fachada em frente com o nome da empresa, de repente me dei conta de que jamais tentara vender em uma funerária.

Como eu já tinha vendido alguns exemplares e estava super animado, resolvi encostar pra ver no que dava. Depois de me dirigir a um sujeito que assuava o nariz numa pia na recepção da funerária (que coisa!) ele me mandou seguir até o final do enorme corredor, onde encontraria o escritório da proprietária. Havia caixões enfileirados nas duas paredes do começo ao fim; senti-me tocado de emoção ao ver uma ala de caixões muito pequenos, entendendo imediatamente que se tratava da “ala infantil”; tentei não imaginar aquela quantidade de crianças mortas – inútil. Quando cheguei ao escritório, no final do corredor, encontrei-o vazio, notando que do outro lado de uma porta na parede do fundo havia uma casa. Bati palmas e logo apareceu um garoto negro muito simpático, que me mandou esperar e foi chamar a proprietária. Em  um minuto uma mulher vestida como uma dona de casa nos seus fazeres diários veio me atender. Mostrei-lhe o livro com os argumentos de sempre, ela titubeou e eu pensei “ah, vamos lá; será a primeira vez que vendo o meu livro numa funerária”. Sem dizer nada ela entrou no escritório e começou a abrir e fechar gavetas, dizendo “acabei de gastar o último que tinha”; até que, depois de meter a mão em outra gaveta, disse “ ta aqui, é meu último dinheiro". Dei a venda por perdida, mas ela me surpreendeu caminhando em minha direção e me entregando a cédula de 10 reais. Feliz da vida, agradeci e saí dali para prosseguir naquele que seria um dia realmente próspero. Tentei evitar olhar de novo para a ala dos caixões infantis – inútil.

Depois do almoço voltei para a pousada Vila Nova, descansei até às 14:00h e voltei ao trabalho. Trabalhei até às 17:00h, voltei para a pousada, arrumei minhas coisas, paguei a conta e peguei um tagarela mas muito gente fina moto-taxista, que me levou até a rodoviária conversando sem parar e me matando de medo pela mania de gesticular com uma das mãos enquanto falava, segurando apenas um dos punhos da moto. Quando me despedi dele na rodoviária, meu enorme sorriso era muito mais de gratidão por ter chegado vivo até ali.

Voltei para casa, em Teresina, decidido a continuar minha jornada em prol de BALADA SUBURBANA em outras cidades.   

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